{"id":330,"date":"2026-08-19T19:02:37","date_gmt":"2026-08-19T19:02:37","guid":{"rendered":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/?p=330"},"modified":"2026-08-19T19:02:37","modified_gmt":"2026-08-19T19:02:37","slug":"o-pastel-de-carreira-1-de-2-2026-08-04-e-11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/index.php\/2026\/08\/19\/o-pastel-de-carreira-1-de-2-2026-08-04-e-11\/","title":{"rendered":"O Pastel de Carreira! 1 de 2 &#8211; 2026.08.04 e 11"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Quem nunca foi a uma carreira n\u00e3o sabe que um pastel tamb\u00e9m pode contar a hist\u00f3ria de um povo. Naquele tempo, quando Viam\u00e3o ainda guardava mais campo que cidade e os ventos pareciam vir soprados das velhas trincheiras farroupilhas na Cruz da Tarum\u00e3, o domingo de carreira era quase uma missa campeira. S\u00f3 que, no lugar dos sinos, eram os relinchos; no lugar do altar, a cancha reta; e, no lugar da comunh\u00e3o, um pastel fumegante acompanhado de guaran\u00e1 gelado. Sem surfar no saudosismo, mas \u00e9 o encantamento na mem\u00f3ria de guri viamonense, neto do v\u00f4 Olympio, e das av\u00f3s Celina e Adiles.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A cancha amanhecia vazia<\/strong>, comprida como promessa de pol\u00edtico e reta como espada desembainhada. Uma faixa de areia castigada pelos cascos e ladeada por fiapos de grama que insistiam em sobreviver \u00e0 passagem dos pingos. Mas bastava o sol subir um pouco para o mundo inteiro desembocar ali.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vinham caminh\u00f5es carregando cavalos de Carazinho<\/strong>, Vacaria, Os\u00f3rio, Santo Ant\u00f4nio, Gravata\u00ed e de todas as quer\u00eancias que ainda acreditavam que um bom pingo valia mais que um discurso bonito e um trono no cemit\u00e9rio. Os animais desciam reluzentes, de m\u00fasculos tremendo sob o couro lustroso, enquanto treinadores e amadrinhadores corriam de um lado para outro tentando convencer algum redom\u00e3o nervoso de que a gl\u00f3ria estava a poucos metros dali \u2013 num tiro de garra e suor de homem e animal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os j\u00f3queis eram magros como taquaras, chamados de \u2018pau-de-virar-tripa\u2019<\/strong>. Vestiam sedas coloridas e carregavam no olhar aquela mistura de coragem e medo que s\u00f3 existe quando o homem sabe que vai desafiar a sorte. Alguns concentrados. Outros mais interessados no desfile das gurias (\u2018tes\u00e3o de carreira\u2019) do que na corrida que os esperava. E o povo chegava. Chegava de carro\u00e7a, a cavalo, de caminh\u00e3o ou a p\u00e9. Chegava para apostar. Apostava-se dinheiro, naturalmente. Mas tamb\u00e9m se apostava ovelhas, novilhas, cavalos, carreteiros e at\u00e9 peda\u00e7os de campo. Havia quem apostasse apenas a honra, e essa era quase sempre a aposta mais cara. Quando n\u00e3o a mais baixa!<\/p>\n\n\n\n<p>No meio daquela multid\u00e3o caminhavam <strong>os guris vendedores de pastel.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tinham uma cesta dependurada no bra\u00e7o<\/strong>, coberta por um pano branco de saco de farinha do velho Moinho Esperan\u00e7a. Debaixo do pano repousava um tesouro dourado: past\u00e9is fritos na banha de porco, com massa sovada na pinga da boa para criar aquelas bolhas crocantes que estalavam nos dentes e deixavam gordura escorrendo pelos cantos da felicidade. O aroma atravessava a cancha inteira. At\u00e9 cavalo parecia sentir. Quando n\u00e3o fungava \u00e0 proximidade do pastel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u2014 Pastel quente! Pastel quente!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E l\u00e1 vinham eles, pequenos comerciantes da inf\u00e2ncia<\/strong>, disputando freguesia com mais empenho que muito candidato em ano eleitoral. Os vendedores mais velhos carregavam os pilas dobrados ao comprido entre os dedos da m\u00e3o esquerda. Um entre cada v\u00e3o. Faziam troco sem olhar, enquanto a outra m\u00e3o entregava pastel e recolhia moedas. Mais adiante, os cochos de tijolos guardavam barras de gelo cobertas por serragem. Dentro deles dormiam cervejas e garrafas de guaran\u00e1 t\u00e3o frias que suavam antes mesmo de serem abertas. Ah, tamb\u00e9m as \u201cgasosas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Z64 2026.08.04 \u2013 Pastel de Carreira \u2013 Edson Olimpio<\/p>\n\n\n\n<p>Cr\u00f4nicas &amp; Agudas \u2013 Jornal Opini\u00e3o de Viam\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Pastel de Carreira! \u2013 Final<\/p>\n\n\n\n<p><em>Nas sombras dos costeados, a fuma\u00e7a dos churrascos desenhava nuvens particulares. Costelas gordas negaceavam sobre valas de brasas. Em tambores cortados ao meio, homens penteavam carnes com a paci\u00eancia dos artistas. Farinha de mandioca havia \u00e0 vontade, porque ga\u00facho que se preza respeita a carne, mas nunca despreza o acompanhamento. Enquanto isso, o velho Nico circulava. Baixo, barrigudo e dono de uma voz fina que cortava o ar como faca correntina ou navalha de bordel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u2014 Dobra pra mim! Dobra tudo!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E dobrava mesmo<\/strong>. Principalmente quando corria algum cavalo de sua estirpe. Ningu\u00e9m sabia ao certo se era coragem ou loucura. Talvez as duas coisas juntas. Longe da raia principal, outros jogavam osso, outros a carpeta sobre um pala estendido no ch\u00e3o. Raros ganhavam o suficiente para comprar um lote. Outros perdiam o que tinham e o que ainda nem possu\u00edam \u2013 como a lavoura por colher. Havia quem sa\u00edsse rico. Havia quem sa\u00edsse devendo a pr\u00f3pria alma. Ent\u00e3o vinha o sil\u00eancio. Aquele sil\u00eancio estranho que s\u00f3 existe segundos antes da largada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os cavalos alinhados. Os j\u00f3queis encolhidos<\/strong>. O povo prendendo a respira\u00e7\u00e3o. E, de repente, o estampido. A cancha explodia. Relhos zuniam no vento. Homens gritavam. Mulheres berravam nomes de cavalos como quem invoca santos. Poeira levantava em redemoinhos. Alguns j\u00f3queis distribu\u00edam chicotadas n\u00e3o apenas no pr\u00f3prio pingo, mas tamb\u00e9m nos advers\u00e1rios, conforme permitia a rudeza dos costumes antigos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Num instante tudo acabava<\/strong>. O vencedor seguia cercado de abra\u00e7os. O derrotado encontrava desculpas com o medo de vingan\u00e7a por companheiro. E a multid\u00e3o voltava para os past\u00e9is. Porque a verdade \u00e9 que a carreira podia durar segundos. Mas o domingo inteiro pertencia ao conv\u00edvio. Ao gaiteiro puxando uma vaneira. Um mulato de dente de ouro dedilhando saudades nas cordas do viol\u00e3o. &nbsp;Ao namoro escondido nos taquarais depois do cair da tarde. \u00c0s promessas de amor feitas sobre pelegos e esquecidas antes da pr\u00f3xima lua. \u00c0 crian\u00e7ada correndo descal\u00e7a entre os carros e cavalos, sonhando um dia montar os campe\u00f5es que via passar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hoje muitas daquelas canchas desapareceram.<\/strong> Est\u00e3o escassas como vergonha na cara, e homem que n\u00e3o se envergonha de n\u00e3o prover o sustento da fam\u00edlia e ficar aboletado numa \u201ccesta\u201d .<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A carreira espelhava o culto banhado no suor do desafio<\/strong>, embevecido pela nostalgia de tempos do \u2018fio de bigode\u2019, curtido na coragem de tempos remotos com a bandeira do \u201cmeu tempo\u201d&#8230; No entrevero das comitivas, de tantas honras enterradas aos 7 p\u00e9s de profundidade, do berro de .38 ao plancha\u00e7o do marca-touro na paleta do desafeto&#8230; Ao humor em versos cantados numa trova em que a rima evolu\u00eda num trago liso numa garrafa de buti\u00e1s bem curtidos. Uma lenda revela que havia um padre que escorava a aposta num cavalo que ele dizia ser o feitio do cavalo de S\u00e3o Jorge. Muitos beatos n\u00e3o iam nessa milonga, pois o padre empoeirava a batina e \u2018neca\u2019 de ganhar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A grama cobriu rastros<\/strong>. O tempo levou cavalos, apostadores, m\u00fasicos e valent\u00f5es. Mas ainda existe uma lembran\u00e7a teimosa que resiste ao esquecimento. Ela n\u00e3o tem ferraduras. N\u00e3o veste seda. N\u00e3o carrega relho. Cabe dentro de uma cesta coberta por um pano branco. Tem cheiro de banha quente, massa crocante e inf\u00e2ncia. Porque, quando a mem\u00f3ria abre suas porteiras, o primeiro a cruzar o corredor do tempo n\u00e3o \u00e9 o cavalo vencedor: \u00c9 sempre o pastel de carreira!<\/p>\n\n\n\n<p>Z64 2026.08.11 \u2013 Pastel de Carreira &#8211; Final \u2013 Edson Olimpio<\/p>\n\n\n\n<p>Cr\u00f4nicas &amp; Agudas \u2013 Jornal Opini\u00e3o de Viam\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem nunca foi a uma carreira n\u00e3o sabe que um pastel tamb\u00e9m pode contar a hist\u00f3ria de um povo. Naquele tempo, quando Viam\u00e3o ainda guardava mais campo que cidade e os ventos pareciam vir soprados das velhas trincheiras farroupilhas na Cruz da Tarum\u00e3, o domingo de carreira era quase uma missa campeira. 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