{"id":370,"date":"2026-08-27T17:28:47","date_gmt":"2026-08-27T17:28:47","guid":{"rendered":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/?p=370"},"modified":"2026-08-27T17:28:47","modified_gmt":"2026-08-27T17:28:47","slug":"o-causo-do-curativo-sinistro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/index.php\/2026\/08\/27\/o-causo-do-curativo-sinistro\/","title":{"rendered":"O Causo do Curativo \u201cSinistro\u201d!"},"content":{"rendered":"\n<p>Assenta o chap\u00e9u, vivente, puxa o banco que o causo \u00e9 de tirar o f\u00f4lego e deixar a alma em suspenso!<\/p>\n\n\n\n<p>Era um fim de tarde de sol rachando o lombo, naqueles campos de terra batida que a gente chamava de &#8220;Est\u00e1dio Maracan\u00e3&#8221;, mas que n\u00e3o passava de um potreiro cheio de bosta de vaca e pedra de amolar. Eu tava l\u00e1, de bombacha curta e p\u00e9s descal\u00e7os, jogando uma pelada que valia mais que a honra do Rio Grande.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio de um entrevero pela bola, o &#8220;Ti\u00e3o Faca-Cega&#8221; me deu um carrinho que n\u00e3o era de brinquedo. Eu voei por cima da poeira e aterrissei de joelho numa ponta de cascalho. O estrago foi feio: o joelho parecendo um bife \u00e0 milanesa, misturado com terra e o que sobrou da minha dignidade. O problema n\u00e3o era o osso aparecendo, era o que vinha depois. Tentei chegar em casa nas &#8220;pontas dos cascos&#8221;, sem fazer barulho, pra ver se a m\u00e3e n\u00e3o notava. Mas m\u00e3e de ga\u00facho tem faro de perdigueiro pra cheiro de sangue e terra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 &#8220;Vem c\u00e1, meu anjo\u2026 que que tu aprontou dessa vez?&#8221; \u2014 disse ela, com aquela voz doce que a gente sabe que esconde o chicote.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela me sentou no banco da cozinha. Eu j\u00e1 tremia mais que vara verde em dia de minuano. Do lado dela, o &#8220;Kit do Supl\u00edcio&#8221;: o vidro de Iodo (que parecia veneno de cobra), o Mertiolate (o trai\u00e7oeiro) e o Mercurocromo (o pincel da disc\u00f3rdia).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 &#8220;M\u00e3e, pelo amor de Deus, passa o vermelhinho! O Merc\u00fario! Esse n\u00e3o d\u00f3i, m\u00e3e!&#8221; \u2014 eu implorava, quase rezando um ter\u00e7o de m\u00e3os juntas para o c\u00e9u. Mas a m\u00e3e tava com o esp\u00edrito do inquisidor naquele dia. Olhou pro meu joelho cheio de terra e sentenciou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 &#8220;Isso aqui t\u00e1 muito sujo, guri. O Merc\u00fario n\u00e3o vai dar conta. Tem que ser o Mertiolate pra &#8216;limpar do fundo&#8217;.&#8221; Me botou a ferida pra lavar na torneira. Bah, tch\u00ea\u2026 Quando ela destampou aquele vidro transparente, o ar da cozinha gelou. O cusco fugiu ganindo e o gato se enfiou debaixo do arm\u00e1rio. Ela molhou um chuma\u00e7o de algod\u00e3o que parecia uma nuvem de tempestade. Eu agarrei as bordas do banco com tanta for\u00e7a que quase saiu suco da madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o algod\u00e3o encostou na ferida\u2026 \u201cMas que barbaridade!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Eu dei um grito que o vizinho do terceiro campo achou que tinha morrido um boi no grito. A dor era uma mistura de brasa viva com picada de marimbondo-caboclo. Minha alma saiu do corpo, deu tr\u00eas voltas no telhado, consultou o dicion\u00e1rio pra ver se existia palavr\u00e3o novo e voltou s\u00f3 pra eu poder chorar. O joelho fervia! Eu soprava tanto que parecia um fole de gaita velha, mas quanto mais soprava, mais o \u00e1lcool do Mertiolate parecia rir da minha cara.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da tortura, pra &#8220;arrematar&#8221; o servi\u00e7o e n\u00e3o dizerem que ela n\u00e3o era caprichosa, ela pegou o Mercurocromo e pintou um sol vermelho por cima de tudo. Sa\u00ed da cozinha com a perna esticada, parecendo um rob\u00f4 com defeito, todo manchado de vermelho vivo, mas com o consolo de que a &#8220;limpeza&#8221; tinha sido feita. Naquela noite, eu dormi com o joelho grudado no len\u00e7ol, mas orgulhoso. No outro dia, l\u00e1 estava eu no campo de novo, exibindo a crosta vermelha como se fosse uma medalha de guerra, pronto pra outra &#8220;estrepolia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Z37 2026.05.19 \u2013 O Curativo Sinistro \u2013 Edson Olimpio<\/strong><br><strong>Cr\u00f4nicas &amp; Agudas \u2013 Jornal Opini\u00e3o de Viam\u00e3o<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assenta o chap\u00e9u, vivente, puxa o banco que o causo \u00e9 de tirar o f\u00f4lego e deixar a alma em suspenso! 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