{"id":389,"date":"2026-09-10T17:21:22","date_gmt":"2026-09-10T17:21:22","guid":{"rendered":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/?p=389"},"modified":"2026-09-10T17:21:22","modified_gmt":"2026-09-10T17:21:22","slug":"vivendo-no-gulag-das-bananas-cronica-de-um-sobrevivente-2026-07-14","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/index.php\/2026\/09\/10\/vivendo-no-gulag-das-bananas-cronica-de-um-sobrevivente-2026-07-14\/","title":{"rendered":"Vivendo no Gulag das Bananas: Cr\u00f4nica de um Sobrevivente 2026.07.14"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Vivendo nesta ilha perdida e mal achada nos confins de um oceano de perdi\u00e7\u00e3o \u2014 que alguns insistem, teimam em chamar de p\u00e1tria \u2014, o vivente acorda com a n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 tentando escapar de um gulag travestido de piquenique. A turbul\u00eancia por aqui tem mist\u00e9rio e, principalmente, minist\u00e9rio e toga. Para navegar nessas \u00e1guas revoltas, \u00e9 preciso ter o couro grosso e o cinismo afiado como adaga missioneira. A correnteza puxa para o fundo, mas o gaud\u00e9rio n\u00e3o se entrega pros homens nem que a vaca tussa o hino nacional. E tem tossido&#8230; Nota: <strong>GULAG<\/strong> \u00e9 uma sigla dos campos de concentra\u00e7\u00e3o sovi\u00e9ticos. Durante <strong>Stalin<\/strong>, mais de 20 milh\u00f5es de seres humanos foram sacrificados pela doutrina comunista.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Neste domingo sagrado, sem o plant\u00e3o da labuta que me consome os dias, dei-me ao luxo de puxar as cobertas at\u00e9 as dez da manh\u00e3.<\/strong> Queria sentir na carca\u00e7a o valor da cama de um desses lustrosos e escorregadios que habitam o Monte Olimpo nacional, aquela paragem malcheirosa e pegajosa de onde emanam as ordens que nos custam os olhos da cara. Falando nessa turma, a ci\u00eancia haver\u00e1 de inventar um exame cl\u00ednico para eles: se lhes tiram o sangue, o laborat\u00f3rio acaba fazendo exame de fezes num l\u00edquido banhado a u\u00edsque e vinho do mais sagrado (ou sangrado para n\u00f3s?) \u2014 sagrado para eles, pois para n\u00f3s, contribuintes involunt\u00e1rios, o gosto \u00e9 pura salmoura com fel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 uma terra ex\u00f3tica essa.<\/strong> <strong>Uma ilha de ponta-cabe\u00e7a onde um tubo de batom \u00e9 fichado como arma de destrui\u00e7\u00e3o em massa,<\/strong> e uma bandeira nacional empunhada com uma B\u00edblia na m\u00e3o de uma vov\u00f3 indefesa \u00e9 classificada como um atentado feroz e terrorista \u00e0 democracia. Que ilha \u00e9 essa, pergunta este sobrevivente? Se isso \u00e9 terrorismo, o bicho-pap\u00e3o anda de pantufas e toma ch\u00e1 de camomila. Para espantar o t\u00e9dio dessa com\u00e9dia bufa, liguei a tev\u00ea no jogo da sele\u00e7\u00e3o. Que barbaridade! Umas biscas fantasiadas de atletas, fazendo de conta que jogam o esporte bret\u00e3o, quando na verdade seriam \u00f3timos coadjuvantes em partida de frescobol no litoral ga\u00facho. No comando da galera abonada, o treinador parece um monge da paci\u00eancia mastigando seu eterno chicl\u00e9, enquanto o futebol brasileiro vai pro ralo. Nada \u00e9 t\u00e3o ruim que n\u00e3o possa piorar: basta ver o poder de escolha para quem s\u00f3 escolhe o pior. Muito pior! Ou se abst\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aproveitando a cama longa e o espelho do banheiro, <\/strong>decidi dar uns cortes no que me resta de &#8220;cabelo&#8221;. O que outrora foi uma frondosa melena de respeito, hoje empacota um misto de macega brava com gravat\u00e1 seco. Desconfio, seriamente, que os cabelos cansaram do lado de fora e come\u00e7aram a crescer para dentro, de tantas rateadas poss\u00edveis no cotidiano. J\u00e1 s\u00e3o quase cem anos na estrada da vida, tomando sol na moleira e encarando as intemp\u00e9ries do tempo. O rumo ao firmamento tem suas fases folcl\u00f3ricas. Meu amigo, o ind\u00f4mito <em>Ninja dos Len\u00e7\u00f3is<\/em> \u2014 que ao lado do <em>Pedalador Itinerante<\/em> e do <em>Ninja dos Pelegos<\/em> forma uma confraria de sobreviventes estoicos \u2014, costuma dizer que, se f\u00f4ssemos macacos nesta selva moderna, j\u00e1 estar\u00edamos h\u00e1 muito tempo na barriga de um le\u00e3o. A agilidade sumiu, n\u00e3o d\u00e1 mais para trepar, principalmente nas \u00e1rvores para colher os frutos da copa e, l\u00e1 de baixo, o felino s\u00f3 espia&#8230; e <em>nhac!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ainda assim, n\u00e3o d\u00e1 para pendurar as chuteiras antes do apito final.<\/strong> O segredo \u00e9 n\u00e3o inventar muito: se o vivente se aquecer demais antes de entrar em campo na maturidade, corre o risco de queimar a largada ou sair torrado antes do primeiro passe. O tempo passa e a sabedoria manda mudar a diplomacia: depois de certa idade, o sujeito tem que fazer amizade com as formigas e com as minhocas. \u00c9 bom trat\u00e1-las bem desde j\u00e1, e parar, definitivamente, de espetar a minhoca no anzol. Afinal, a vizinhan\u00e7a futura exige boa conviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No fechamento das contas, diante de tanta burocracia<\/strong> que regula at\u00e9 o sopro da vida, restou-me uma d\u00favida atroz, daquelas que a gente persegue atr\u00e1s de uma resposta l\u00f3gica: ser\u00e1 que at\u00e9 para a crema\u00e7\u00e3o do vivente o sujeito precisa apresentar um laudo de autoriza\u00e7\u00e3o do Corpo de Bombeiros? Do jeito que o gulag funciona, capaz de exigirem o alvar\u00e1 de preven\u00e7\u00e3o contra inc\u00eandio para o pr\u00f3prio falecido. Mas enquanto o alvar\u00e1 n\u00e3o vem, sigo tocando o barco, remando na correnteza e rindo na cara do perigo, com o bisturi pronto para descascar as laranjas do destino.<\/p>\n\n\n\n<p>Z65 2026.07.14 \u2013 Vivendo no Gulag das Bananas: Cr\u00f4nica de um Sobrevivente!<\/p>\n\n\n\n<p>Edson Olimpio Oliveira \u2013 Cr\u00f4nicas &amp; Agudas<\/p>\n\n\n\n<p>Jornal Opini\u00e3o de Viam\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivendo nesta ilha perdida e mal achada nos confins de um oceano de perdi\u00e7\u00e3o \u2014 que alguns insistem, teimam em chamar de p\u00e1tria \u2014, o vivente acorda com a n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 tentando escapar de um gulag travestido de piquenique. A turbul\u00eancia por aqui tem mist\u00e9rio e, principalmente, minist\u00e9rio e toga. 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