{"id":391,"date":"2026-09-10T17:22:37","date_gmt":"2026-09-10T17:22:37","guid":{"rendered":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/?p=391"},"modified":"2026-09-10T17:22:37","modified_gmt":"2026-09-10T17:22:37","slug":"quando-a-justica-perde-a-medida-2026-07-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/index.php\/2026\/09\/10\/quando-a-justica-perde-a-medida-2026-07-21\/","title":{"rendered":"QUANDO A JUSTI\u00c7A PERDE A MEDIDA! 2026.07.21"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>H\u00e1 decis\u00f5es que n\u00e3o erram por ignor\u00e2ncia, mas por<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>excesso de certeza ou crueldade ideol\u00f3gica.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Em 1958, no auge do Grande Salto Adiante, sob a lideran\u00e7a de Mao Ts\u00e9-Tung*<\/em><\/strong><em>, a China decidiu que pardais eram inimigos do povo. A justificativa parecia simples: comiam gr\u00e3os. A solu\u00e7\u00e3o, mais simples ainda: elimin\u00e1-los. O m\u00e9todo foi cruel. N\u00e3o se tratou de ca\u00e7a, mas de exaust\u00e3o. Milh\u00f5es de aves foram impedidas de pousar at\u00e9 ca\u00edrem do c\u00e9u, mortas pelo cansa\u00e7o. Foi uma senten\u00e7a coletiva aplicada sem defesa, sem nuance e sem compreens\u00e3o do sistema ao qual pertenciam.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 conhecido: colapso ecol\u00f3gico, explos\u00e3o de pragas, quebra de safras e fome em escala hist\u00f3rica. Milh\u00f5es de mortos. N\u00e3o por falta de a\u00e7\u00e3o, mas por a\u00e7\u00e3o equivocada \u2014 sustentada por uma convic\u00e7\u00e3o r\u00edgida e por uma justi\u00e7a sem revis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O erro n\u00e3o foi apenas t\u00e9cnico. Foi moral.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sempre que o poder decide agir sem escutar o todo, transforma corre\u00e7\u00e3o em viol\u00eancia. E viol\u00eancia, quando legitimada, costuma vir acompanhada de justificativas bem organizadas. A dist\u00e2ncia no tempo n\u00e3o torna essa hist\u00f3ria irrelevante. Ao contr\u00e1rio, ela se repete em outras formas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hoje, n\u00e3o se exterminam pardais.<\/strong> Mas ainda se aplicam decis\u00f5es que ignoram propor\u00e7\u00e3o. Ainda se confundem rigor com justi\u00e7a. Ainda se mede o erro sem medir o impacto da puni\u00e7\u00e3o. Quando uma senten\u00e7a ultrapassa o indiv\u00edduo e atinge sua fam\u00edlia, seus filhos, sua possibilidade de recome\u00e7o, algo saiu do eixo. A pena deixa de ser instrumento de equil\u00edbrio e passa a ser mecanismo de amplia\u00e7\u00e3o do dano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A lei existe para ordenar. Mas, quando perde a medida, desordena. <\/strong>N\u00e3o se trata de absolver erros nem de relativizar responsabilidades. Trata-se de lembrar que justi\u00e7a sem propor\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas for\u00e7a com apar\u00eancia de legitimidade. H\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental entre o instinto de uma ave e a decis\u00e3o de um homem. A pomba que pousa sobre uma est\u00e1tua n\u00e3o ofende; apenas existe. J\u00e1 o ser humano, quando julga, carrega o peso da escolha \u2014 e, com ela, a obriga\u00e7\u00e3o de medir consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A hist\u00f3ria dos pardais deveria ter encerrado uma ilus\u00e3o:<\/strong> a de que \u00e9 poss\u00edvel corrigir o mundo por simplifica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9. Sistemas complexos n\u00e3o toleram respostas brutais sem cobrar o pre\u00e7o. Sociedades tamb\u00e9m n\u00e3o. Quando se perde a medida, o dano n\u00e3o \u00e9 imediato apenas. Ele se prolonga. Espalha-se. Marca gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A fome daquele tempo foi vis\u00edvel.<\/strong> Outras fomes s\u00e3o mais discretas: aus\u00eancia, ruptura, perda de horizonte. E h\u00e1 uma ainda mais grave \u2014 a fome de esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A antiga imagem da pomba que retorna com um sinal de terra firme continua atual. N\u00e3o como s\u00edmbolo religioso, mas como advert\u00eancia: a vida precisa de espa\u00e7o para continuar. Quando at\u00e9 isso se perde, n\u00e3o restam vencedores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>A hist\u00f3ria j\u00e1 mostrou o suficiente. O problema n\u00e3o \u00e9 falta de exemplo.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u00c9 a insist\u00eancia em ignor\u00e1-lo.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>2026.07.21 \u2013 Quando a Justi\u00e7a perde a Medida<\/p>\n\n\n\n<p>Edson Olimpio \u2013 Cr\u00f4nicas &amp; Agudas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 decis\u00f5es que n\u00e3o erram por ignor\u00e2ncia, mas por excesso de certeza ou crueldade ideol\u00f3gica. Em 1958, no auge do Grande Salto Adiante, sob a lideran\u00e7a de Mao Ts\u00e9-Tung*, a China decidiu que pardais eram inimigos do povo. A justificativa parecia simples: comiam gr\u00e3os. A solu\u00e7\u00e3o, mais simples ainda: elimin\u00e1-los. O m\u00e9todo foi cruel. 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