{"id":402,"date":"2026-09-24T18:48:25","date_gmt":"2026-09-24T18:48:25","guid":{"rendered":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/?p=402"},"modified":"2026-09-24T18:48:25","modified_gmt":"2026-09-24T18:48:25","slug":"o-voo-da-fome-e-a-cal-das-estatuas-2026-08-01","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/index.php\/2026\/09\/24\/o-voo-da-fome-e-a-cal-das-estatuas-2026-08-01\/","title":{"rendered":"O Voo da Fome e a Cal das Est\u00e1tuas! 2026.08.01"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Reflex\u00f5es sobre a Natureza e o Poder<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>A hist\u00f3ria \u00e9 frequentemente escrita com sangue, mas, por vezes, \u00e9 desenhada pelo sil\u00eancio dos c\u00e9us. Entre 1958 e 1962, a China de Mao Ts\u00e9-Tung tentou domar a biologia com decretos pol\u00edticos. Ao rotular o pardal-mont\u00eas como um &#8220;inimigo do povo&#8221; por consumir quatro quilos de gr\u00e3os ao ano, o Grande Timoneiro n\u00e3o apenas ordenou um exterm\u00ednio; ele assinou a senten\u00e7a de fome para mais de 30 milh\u00f5es de almas. O barulho das panelas, que impedia as aves de pousar at\u00e9 ca\u00edrem mortas de exaust\u00e3o, foi o prel\u00fadio de um desequil\u00edbrio ecol\u00f3gico onde gafanhotos, sem o seu predador natural, devoraram o que restava da esperan\u00e7a chinesa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O homem, na sua arrog\u00e2ncia de moldar o mundo \u00e0 sua imagem<\/strong> \u2014 seja na industrializa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do Grande Salto Adiante ou na purga ideol\u00f3gica da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural e da sataniza\u00e7\u00e3o de opositores \u2014, esquece-se de que a natureza n\u00e3o reconhece fronteiras partid\u00e1rias nem hierarquias de ditadores. A &#8220;limpeza&#8221; dos c\u00e9us resultou numa terra est\u00e9ril. Anos depois, a China ver-se-ia obrigada a importar pardais da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O p\u00e1ssaro, que outrora era praga, tornava-se agora o diplomata necess\u00e1rio para restaurar a vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desta li\u00e7\u00e3o de exterm\u00ednio, surge uma provoca\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea: e as nossas pombas? <\/strong><em>Esses animais que, na realidade b\u00edblica de No\u00e9, trouxeram o ramo de oliveira, ou que na espiritualidade representam o sopro divino, hoje s\u00e3o vistas como v\u00e2ndalos urbanos. Quando uma pomba libera os seus dejetos sobre o bronze frio de um conquistador ou o m\u00e1rmore de um estadista, estaria ela a exercer uma forma de &#8220;picha\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica&#8221;? Seria o ato de excretar uma profana\u00e7\u00e3o deliberada da gl\u00f3ria humana? Sim ou n\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A analogia \u00e9 tentadora.<\/strong> Se perseguimos o pichador humano que utiliza o spray ou o batom para marcar a sua exist\u00eancia ou o seu protesto no patrim\u00f4nio p\u00fablico, por que hesitamos na m\u00e9trica aplicada \u00e0s aves? O encarceramento ou o exterm\u00ednio por &#8220;ofensa \u00e0 imagem&#8221; das est\u00e1tuas ignora que o p\u00e1ssaro n\u00e3o distingue entre a cabe\u00e7a de um tirano e o galho de uma ac\u00e1cia. Para a pomba, a est\u00e1tua \u00e9 apenas solo ou um campo de pouso; para o humano, a est\u00e1tua \u00e9 ego. Perseguir o p\u00e1ssaro pelo seu rastro \u00e9, talvez, o ponto m\u00e1ximo da nossa vaidade: a tentativa de policiar at\u00e9 o que \u00e9 instintivo, na esperan\u00e7a v\u00e3 de manter imaculada uma hist\u00f3ria que, tal como a pol\u00edtica de Mao, muitas vezes j\u00e1 nasceu manchada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>O Sat\u00e2nico sataniza a quem sua m\u00e1 \u00edndole deseja!<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>No fim, a cal das pombas nas pra\u00e7as e o exterm\u00ednio dos pardais nos campos ensinam o mesmo: qualquer tentativa de silenciar a natureza \u2014 seja pelo ru\u00eddo das panelas ou pelas grades da est\u00e9tica urbana \u2014 acaba sempre por revelar a fragilidade do pedestal onde nos colocamos.&nbsp; Nota:&nbsp; Inspirado nos eventos do &#8220;Grande Salto Adiante&#8221; (1958-1962) e na filosofia das interven\u00e7\u00f5es urbanas \u2013 D\u00e9bora, mulher e m\u00e3e, condenada a cerca de 17 anos de pris\u00e3o. Al\u00e9m da tentativa de destruir a humanidade da pessoa, amea\u00e7a com crueldade ideol\u00f3gica a na\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Z63 2026.08.01 \u2013 O Voo da Fome e a Cal das Est\u00e1tuas<\/p>\n\n\n\n<p>Edson Olimpio \u2013 Cr\u00f4nicas &amp; Agudas<\/p>\n\n\n\n<p>Jornal Opini\u00e3o de Viam\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es sobre a Natureza e o Poder A hist\u00f3ria \u00e9 frequentemente escrita com sangue, mas, por vezes, \u00e9 desenhada pelo sil\u00eancio dos c\u00e9us. Entre 1958 e 1962, a China de Mao Ts\u00e9-Tung tentou domar a biologia com decretos pol\u00edticos. 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