{"id":406,"date":"2026-09-24T18:57:00","date_gmt":"2026-09-24T18:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/?p=406"},"modified":"2026-09-24T18:57:00","modified_gmt":"2026-09-24T18:57:00","slug":"a-trindade-fatal-parte-1-2026-09-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revista.edsonolimpio.com.br\/wordpress\/index.php\/2026\/09\/24\/a-trindade-fatal-parte-1-2026-09-15\/","title":{"rendered":"A Trindade \u201cFatal\u201d! Parte 1 | 2026.09.15"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Iodo \u2013 Mercurocromo &#8211; Mertiolate<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Outro dia, garimpando no galp\u00e3o da mem\u00f3ria, lembrei-me duma \u00e9poca em que joelhos ralados eram medalhas de vit\u00f3rias e coragem e a caixa de \u201cprimeiros socorros\u201d mais lembrava um kit de tortura medieval ou at\u00e9 um estojo de pintura de guerra. A gente procurava a bronca, tombo feio que a pele ficava no cascalho, mas o pavor real, verdadeiro, n\u00e3o era o sangue: era a voz da m\u00e3e e a tarraxa do vidro destampando. Sem embromar mais, vamos destrinchar essa \u201csant\u00edssima trindade do ardor, com pingos de ci\u00eancia e gotas de saudade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Iodo \u2013 A Cor da Terra e o Grito Saltando do Peito.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O iodo era o pai dos antiss\u00e9pticos. Uma solu\u00e7\u00e3o de iodo e iodeto de pot\u00e1ssio em \u00e1lcool que deixava uma mancha marrom-terra na pele, como se a gente tivesse sido marcado a ferro e brasa como um novilho no curral. <strong>Pingo de Ci\u00eancia:<\/strong> O iodo \u00e9 um agente oxidante poderoso. Ele entrava na ferida e sa\u00eda &#8220;aniquilando&#8221; membranas de bact\u00e9rias, fungos e qualquer forma de vida \u2014 inclusive as tuas c\u00e9lulas saud\u00e1veis. Por isso aquela sensa\u00e7\u00e3o de que a perna estava pegando fogo. <strong>Ponta\u00e7os de Drama:<\/strong> Passar iodo era um rito de passagem. A mancha escura demorava dias para sair, e a gente andava pela rua com o joelho parecendo um peda\u00e7o de charque esquecido no sol. Se o vivente n\u00e3o desse um grito de &#8220;prossigo&#8221; para o c\u00e9u, n\u00e3o era humano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Merc\u00fario Cromo \u2013 O Encarnado de uma Pintura de Guerra Guarani.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ah, o bem amado, o queridinho da gurizada! O <strong>Mercurocromo<\/strong> (Merbromina) era o alento do pi\u00e1 que j\u00e1 estava com os olhos lacrimejantes. Ele n\u00e3o ardia. Era um l\u00edquido de um vermelho vivo, quase fosforescente, que transformava qualquer arranh\u00e3o numa ferida aberta cinematogr\u00e1fica de matin\u00e9 de domingo. <strong>Pingo de Ci\u00eancia:<\/strong> Sua base era o merc\u00fario e o bromo. Ele impedia a prolifera\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias, mas tinha um defeito: era um antiss\u00e9ptico fraco perto dos outros e, claro, levava <strong>merc\u00fario<\/strong> na composi\u00e7\u00e3o. <strong>Trai\u00e7oeiro Desuso:<\/strong> O bicho caiu em desuso (e foi proibido pela Anvisa no in\u00edcio dos anos 2000) porque o merc\u00fario \u00e9 cumulativo no corpo e t\u00f3xico para o meio ambiente. Al\u00e9m disso, aquela cor de &#8220;sangue falso&#8221; mascarava infec\u00e7\u00f5es; n\u00e3o se conseguia ver se o machucado estava inflamado ou se era s\u00f3 o brilho do rem\u00e9dio. <strong>O Cinema:<\/strong> O guri sa\u00eda de casa pintado de vermelho como se tivesse enfrentado uma tropa inteira, mas estava faceiro porque a &#8220;cura&#8221; n\u00e3o tinha cobrado o imposto da dor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Mertiolate \u2013 O Supremo \u201cCapeta\u201d Transparente.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se o iodo era o fogo e o merc\u00fario era a paz, o <strong>Mertiolate<\/strong> (Timerosal) era a trai\u00e7\u00e3o pura e simples. Ele parecia \u00e1gua, transparente e inofensivo no vidro. Mas bastava uma gota encostar no &#8220;pisado&#8221; para a alma sair do corpo, dar tr\u00eas voltas no rancho e voltar soltando fa\u00edsca. <strong>Pingo de Ci\u00eancia:<\/strong> O composto original levava timerosal (outro derivado de merc\u00fario) em uma base altamente alco\u00f3lica. Era o \u00e1lcool tocando os nervos expostos que fazia o guasca pular mais que cavalo sob espora de prata. <strong>A Revolu\u00e7\u00e3o \u2013 a Paz Farroupilha:<\/strong> Nos anos 90, o Mertiolate mudou a f\u00f3rmula. Tiraram o merc\u00fario e o \u00e1lcool, e ele virou &#8220;o que n\u00e3o arde&#8221;. Para a nossa gera\u00e7\u00e3o, aquilo soou como uma heresia! Um Mertiolate que n\u00e3o d\u00f3i? \u00c9 como um chimarr\u00e3o frio: perde a raz\u00e3o de ser. <strong>O Trauma de Guerra:<\/strong> O &#8220;medo por antecipa\u00e7\u00e3o&#8221; era real. A gente via a m\u00e3e vindo com o algod\u00e3o e j\u00e1 come\u00e7ava a benzer o corpo, sabendo que a ard\u00eancia ia ser de &#8220;tirar o couro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Recuerdos desse Cronista e M\u00e9dico que j\u00e1 foi guri medonho em Viam\u00e3o City. Concluo na pr\u00f3xima jornada, pealando as mem\u00f3rias e trazendo-as para a Est\u00e2ncia da Saudade!<\/p>\n\n\n\n<p>Z35&nbsp; 2026.09.15 \u2013 A Trindade Fatal 1<\/p>\n\n\n\n<p>Edson Olimpio \u2013 Cr\u00f4nicas &amp; Agudas<\/p>\n\n\n\n<p>HIST\u00d3RIA da MEDICINA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Iodo \u2013 Mercurocromo &#8211; Mertiolate Outro dia, garimpando no galp\u00e3o da mem\u00f3ria, lembrei-me duma \u00e9poca em que joelhos ralados eram medalhas de vit\u00f3rias e coragem e a caixa de \u201cprimeiros socorros\u201d mais lembrava um kit de tortura medieval ou at\u00e9 um estojo de pintura de guerra. 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