Earworm” (“Verme de Ouvido”) – 2
Numa crônica anterior citei o famoso Buraco do Padre e as suas reuniões dançantes num tempo pouco lembrado em que jovens flertavam, dançava-se de rosto colado (pelo menos se tentava) e com o braço envolvendo a bela e perfumada criatura. Amores intensos floresciam e feneciam nos jatos das luzes estroboscópicas, do globo giratório de espelhos ou nos suores de uma noite de carnaval no Cidreira Praia Clube (velho e destruído CPC de guerra!). Vamos bailar juntos nas nossas memórias e na efervescência de sentimentos que brotam em mim e em você? Bora, então!
Lembra da marchinha “Quarta-feira de cinzas” de Carlinhos Lyra e do Poetinha Vinicius? Uma poesia que imortalizou a imagem de um salão cheio, do brilho nos olhos e daquela moça que se torna a tua musa do baile. Um recomeço? Renascimento. O calor aditivado pelos hormônios. Pelos “asteroides” hormonais.
“Tanto riso, oh, tanta alegria | Mais de mil palhaços no salão | Arlequim está chorando pelo amor da Colombina | No meio da multidão.”
Embora a música trace as luzes da festa ou de seu fim, esse trecho é o apogeu. A explosão de alegria que iluminou carnavais de jovens em busca do amor-quase-ou-perfeito. Uma Colombina que trouxe luzes, onde muitas não sobrevivem às cinzas de uma quarta-feira.
Vamos cutucar com vara curta outra caverna, outro escaninho da memória. O célebre gaúcho de Santana do Livramento, gago quando não cantava, um monstro inigualável de voz e interpretação realista – Nelson Gonçalves. Lembra “Naquela mesa”? Mais viável aos veteranos que troteavam um bolero ou um tango à “media luz”, sobre um tijolo.
“Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor / Naquela mesa ele juntava gente / E contava contente o que era pra ser melhor / Naquela mesa ele deixou a gente / E hoje, infelizmente, só resta o pó.”
Essa letra é um sopapo, um pontaço de adaga castelhana, um pealo na saudade. Ele descreve o pai amado, não como uma criatura distante, mas como o núcleo, o âmago, o centro gravitacional da família e dos amigos – aquele que juntava “gente”. Além do velho Aldo Cabeleira, meu pai, lembro profundamente da minha mãe Dora que criou os irmãos e a família girava na harmonia das suas mãos. Há músicas, até frêmitos que ultrapassam a vida. A nostalgia do pai e a Mesa Vazia. Como você sente? Diga-me!
“Eu sei que vou te amar | Por toda a minha vida eu vou te amar | Em cada despedida eu vou te amar | Desesperadamente, eu sei que vou te amar.” De Vinícius de Moraes e Tom Jobim – “Eu sei que vou te amar”.
Quantas vezes já cantarolou isso no seu silêncio, ou ao ouvido da prenda amada? É eterno esse hino ao amor. Reflete, ilumina a aceitação do amor com todas as suas consequências, tanto da alegria do encontro como pela dor da saudade. Eleva a parceria ao dogma do destino inevitável.
Tom Jobim, mestre da sensibilidade, na última frase gravou a vida a dois – “É impossível ser feliz sozinho”. É a conclusão e o reconhecimento final de que, por mais independente que seja a criatura, a felicidade plena só se completa no espelho do outro.
“Vou te contar / Os olhos já não podem ver / Coisas que só o coração pode entender / Fundamental é mesmo o amor / É impossível ser feliz sozinho.”
Deus do Céu, que maravilha mesmo!
2026.01.20 – “Earworm” 2 (“Verme de Ouvido”)
Edson Olimpio – Crônicas & Agudas