


A história se repete nas aguadas do tempo. O farroupilha não se entregava aos viventes de alma turva; sabia separar o joio do trigo na antiga Província de São Pedro — este hoje exaurido Rio Grande do Sul. Era um tempo em que o papel só tinha valor quando respaldado pela palavra empenhada, pela honra da família e pelo amor à pátria.
Hoje, o Brasil parece oferecer o lombo ao matadouro quando a terra é inundada por caóticas escolas de medicina — sim, medicina com “m” minúsculo — onde um diploma não cultua dignidade, nem mérito. Não carrega as lutas lutadas, as batalhas vencidas nas incontáveis horas de estudo, no brete dos corredores hospitalares, nas salas de cirurgia, no estoicismo dos plantões, nem na sublime visão do nascer de uma criança. Avança uma máquina fria de fabricar “médicos” sem espírito e sem missão, com diploma como alvo final. Multiplicam-se como peste insidiosa. Muitos fugirão dos plantões de emergência — pediatria, obstetrícia, cirurgia de urgência/emergência — justamente onde vidas pendem por um fio. Ali, onde tantos morrerão ou ficarão marcados para sempre, suas deficiências profissionais saltarão aos olhos, ainda que tentem escondê-las sob títulos e discursos. Ou países de origem.
A Medicina brasileira — com “M” maiúsculo — ainda resiste no mérito, na ética e na dignidade ancestral. Mas há desvios de caráter. A obsessão ideológica e o flagelo político-eleitoral contaminam consciências e inflamam ódios. A justiça se adultera, a corrupção se repete, e a sensação de impunidade corrói as bases da confiança social. É especialmente grave quando “médicos” defendem tortura, perseguição ou a eliminação de adversários políticos. A história já conheceu o horror personificado no chamado “Anjo da Morte”, Josef Mengele — e basta lembrar para compreender até onde pode descer a degradação ética quando a ideologia suplanta a humanidade.
Como confiar em um “especialista em infecções” que torce pela persistência do mal? Em um “médico da mente” cuja própria razão está corroída pelo fanatismo do “meu lado é o único certo”? Em um “médico do coração” cujo peito pulsa ódio e desejo de sofrimento para mulheres, idosos ou enfermos graves? A lista cresce quando riqueza e poder passam a valer mais que a vida humana. Quando se deseja a destruição física e/ou moral de quem não reza pela mesma cartilha ideológica, a medicina deixa de ser sacerdócio e passa a ser instrumento/arma.
Pergunto, então: você entregaria seu corpo — sua cabeça, seu coração — a novos “anjos da morte”? E o corpo de seus filhos? De sua esposa? E, se sobreviverem, o de seus netos?
Talvez você não goste do modo como falo ou escrevo. Mas há 55 anos cuido de pessoas — você, sua família, milhares nos plantões, sobretudo de cirurgia de urgência e emergência. Não sou único. Somos muitos nessa missão silenciosa, sustentados por ética, capacidade técnica e, acima de tudo, amor real ao paciente e respeito aos familiares.
Qual é, afinal, a derradeira arma do cidadão honesto? A atitude. A escolha. O voto.
Nessa balada sombria, o voto pode sucumbir — ou pode resistir. Escolher os piores declarados? Ou filtrar, entre imperfeições humanas, aqueles de maior integridade e capacidade coletiva? Cerca de 30 milhões se abstiveram de decidir o futuro comum. A omissão também escolhe, geralmente o pior. É fácil dizer que todos são iguais, que não há solução, que “rouba, mas faz”, que Deus resolverá… Mas o vivente campeiro sabe: é preciso boa semente, água limpa e terra bem cuidada para colher bem. O gaúcho que se preza — espécie em rarefação — zela pela boiada, pelas ovelhas, pelo pingo, e nunca esquece o cusco que guarda o galpão.
A escolha é simples e dura: descuido ou vigilância?
Indiferença ou responsabilidade? Refletiu? Sim — ou não?
2026.04.07 – Anjos da Morte ou Guardiões da Vida
Edson Olimpio – Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão

O Martírio de Jesus Cristo Parte 3 – Final
Com certeza. É um exercício fascinante olhar para um dos momentos mais emblemáticos da história sob a lente da realidade material daquela época. A fé nos dá o “porquê”, mas a arqueologia e a história militar nos dão o “como”. E a Medicina mostra os meandros da fisiologia humana.
O Cantil de Ferro e o Cálice da Profecia
Sob o sol implacável da Judeia, o ar no Gólgota estava carregado de poeira e do cheiro metálico de sangue e suor. Para os legionários romanos ali de guarda, aquela era apenas mais uma sexta-feira de execução em uma província turbulenta. Eles não estavam lá por ódio pessoal, mas por dever — e o dever sob o calor do Oriente Médio exigia hidratação. Ao pé da cruz, não havia cálices de prata ou vinhos finos de Roma, da Itália ou das terras conquistadas. O que havia era um vaso de barro comum, contendo a ração diária daqueles homens: a Posca.
Para um observador moderno, o termo “vinagre” soa como um castigo adicional, um insulto ácido a um homem moribundo. Contudo, para o centurião e seus subordinados, a Posca era a tecnologia de sobrevivência do Império. Aquela mistura de vinho azedo e água era o que impedia a tropa de sucumbir à cólera e à desidratação nas águas infectas. Era a bebida da base da pirâmide: do soldado que marchava 30 quilômetros por dia e do escravo que labutava nas minas.
Quando um dos soldados molhou a esponja e a ergueu num ramo de hissopo, ocorreu um encontro silencioso entre duas realidades:
A arqueologia nos ensina que o “vinagre” não era um veneno, mas o sustento do exército mais poderoso do mundo. A religião nos ensina que aquele momento era o ápice de um sacrifício. A janela que se abre entre as duas é a da humanidade compartilhada.
Ao aceitar a Posca, Jesus não estava apenas cumprindo uma escritura; Ele estava bebendo a bebida mais comum, amarga e necessária dos homens mais simples de Seu tempo. O sagrado não rejeitou o profano; ele o absorveu. Ele o transformou!
O que essa janela nos revela?
Essa perspectiva remove a rígida caricatura do “soldado cruel” que oferece algo intragável e coloca no lugar um cenário muito mais profundo: o de um condenado compartilhando a última gota de humanidade com seus executores, através de uma mistura de água e ‘acetum’ que era, ironicamente, a única coisa capaz de mantê-lo consciente por mais uns instantes.
Assim, concluímos essa saga de Amor e Respeito em três Crônicas, dando a mim e a você a chance de conhecer o desconhecido e traçar linhas de entendimento, de compreensão numa relação de tempo e espaço, de Fé e de Esperança, e de inesgotável Gratidão!
2026.03.31 – Posca ou Vinagre Puro 3
O Martírio de Jesus Cristo – Parte 3 – Final
HISTÓRIA da MEDICINA
O Martírio de Jesus Cristo – Parte 2
Detalhes! A vida é uma sequência interminável de detalhes. Importantes ou nem tanto. Pessoalmente valorizo a observação e o critério exigente do detalhe – complexo de cirurgião! Assim quando foi oferecida “posca” ou vinagre puro para Jesus Cristo, era através de um cálice, algum tipo de copo, um vaso de barro ou como Hollywood extravasa em suas películas de todos os tempos: couro ou víscera animal? Vamos viajar pelos materiais mais prováveis para os recipientes de líquidos das legiões romanas no século I.
1. Terracota (Cerâmica)
Era o material mais comum para o armazenamento no dia a dia. Muitos soldados usavam pequenas jarras de barro chamadas lagunculae. Vantagem: barata e mantinha a água levemente fresca pela evaporação através dos poros do barro. Desvantagem: frágil para longas marchas e combates.
2. Bronze (e raramente Ferro)
O metal era usado, mas o bronze era muito mais comum que o ferro para recipientes de líquidos. Por que não o ferro? O ferro oxida (enferruja) muito rápido em contato com água e, principalmente, com a acidez da Posca (vinagre misto). As cantinas de bronze eram circulares, geralmente achatadas para transporte junto ao corpo ou à “furca” (vara de carga do soldado).
3. Couro (O Uter)
Para grandes volumes ou marchas rápidas, o couro era essencial. Eram os chamados utres (odres). Feitos de pele de cabra ou boi, tratados com resina ou piche no interior para evitar vazamentos e o gosto de couro da água.
4. Madeira
Existem evidências arqueológicas de cantis feitos de ripas de madeira, como pequenos barris em miniatura, reforçados com aros metálicos. Eram extremamente resistentes.
O que estaria no Gólgota?
Para a cena de crucificação, há duas possibilidades arqueológicas principais: 1. Vaso Comum: os Evangelhos mencionam um “vaso” (Skeuos em grego) no chão. Isso indica um recipiente de cerâmica (jarra ou ânfora). Que continha a ração de posca para os soldados de guarda. 2. Cantil Individual: se um soldado oferecer seu próprio suprimento, ele teria usado sua “laguncula” (bronze ou cerâmica) ou um odre de couro.
Nota.
O ferro era reservado quase que exclusivamente para armamentos (espadas, pontas de lança, armaduras) devido a sua dureza, enquanto o bronze e o barro era o usual na hidratação militar. Um “Cantil de Bronze” espelha a autoridade militar, precisão histórica, o “metal das legiões”. Um “vaso de Barro” mais humilde e fiel ao relato bíblico de João (“havia ali um vaso…”), contrasta a fragilidade da cerâmica com a força do evento.
Na próxima semana concluiremos essa pesquisa histórica do episódio mais importante da Cristandade, com Amor e o mais pleno respeito ao Sagrado Evangelho.
2026.03.24 – Posca ou Vinagre 2 – O Martírio de Jesus
Edson Olimpio – Crônicas & Agudas
HISTÓRIA da MEDICINA
Imagem para outros canais.

O Martírio de Jesus Cristo Parte 1
Com amor e o mais eterno respeito vamos mergulhar, adentrar numa importante análise histórica e teológica: episódio do vinagre na cruz, que é um daqueles momentos onde a arqueologia, a cultura militar romana e as profecias bíblicas se encontram de forma fascinante.
Sim, o fato é mencionado nos quatro Evangelhos (Mateus 27:48, Marcos 15:36, Lucas 23:36 e João 19:29). No entanto, o termo “vinagre” pode levar a uma interpretação equivocada hoje em dia. Naquela época, dificilmente seria o vinagre de cozinha puro que conhecemos, mas sim a Posca.
2. O que era a Posca?
A Posca era a bebida oficial e cotidiana das legiões romanas. Era uma mistura de: Acetum: Vinho azedo ou vinagre de vinho que já havia passado do ponto de consumo refinado. Água: Para diluição. Ervas e Mel: Ocasionalmente adicionados para melhorar o sabor. Por que os soldados bebiam isso? Você está correto em sua intuição: a acidez do vinagre ajudava a matar parte das bactérias da água (que muitas vezes era estagnada ou impura em acampamentos), fornecia vitamina C e era muito mais refrescante e reidratante do que a água pura sob o sol escaldante. Além disso, era barata e evitava a embriaguez das tropas em serviço.
3. Jesus recebeu Vinagre Puro ou Posca?
4. Intenções e Significados
O ato de dar a bebida a Jesus tem camadas diferentes de interpretação:
O Contraste do Vinho com Mirra.
Antes da crucificação, ofereceram a Ele vinho misturado com mirra (um tipo de anestésico), que Ele recusou para manter a consciência plena. O “vinagre” (Posca) no final Ele aceitou (ou ao menos provou) logo antes de expirar. A Posca representa a humanidade comum e a presença militar. Ao beber a Posca, Jesus compartilha da bebida do degrau mais baixo da sociedade romana: o soldado comum e o escravo. Não era um veneno, mas uma bebida de sobrevivência, amarga e ácida, que simbolizava o “cálice” de sofrimento que Ele estava terminando de beber.
2026.03.17 – Posca ou Vinagre 1- O Martírio de Jesus
Edson Olimpio – Crônicas & Agudas
HISTÓRIA DA MEDICINA
Observação Natacha: A imagem será usada em outros canais.
Uma investigação histórico-médica sobre o último gole de Jesus Cristo em três crônicas imperdíveis e singulares.
Crônicas & Agudas 1: O Mistério da Posca e o Martírio de Cristo.
Edson Olimpio Oliveira
Médico | Escritor | Artes | Jornalismo
A Medicina é uma das poucas profissões que o indivíduo não “tira” ao chegar em casa. Para a sociedade, o diploma é uma tatuagem indelével (O Diploma de Médico pertence à Jesus!” – Dra. Marlene Nobre). Do churrasco de domingo à fila do cinema, o médico é frequentemente convocado a dar “só uma olhadinha” em um exame ou a opinar sobre uma conduta alheia. É aqui que nasce um dos maiores desafios éticos da nossa jornada: o risco da opinião descontextualizada.
O Constrangimento do “Parecer por Amizade”
Muitas vezes, familiares e amigos carecem do senso crítico necessário para entender que Medicina não é palpite. Uma conduta cirúrgica ou um diagnóstico complexo não são frutos de uma intuição momentânea, mas de uma anamnese rigorosa e de exames físicos que o ambiente informal não permite. O constrangimento é real: se o médico se nega a falar, soa arrogante; se fala demais, fere a ética e, pior, pode induzir ao erro.
O Papel do “Tradutor Benevolente”
Quando somos consultados sobre um paciente que não é nosso, nossa função principal não é a de um juiz da conduta alheia, mas a de um tradutor. A missão: Decifrar o “médiquês” hermético que, por vezes, a equipe assistente não conseguiu simplificar. Frequente? Sim ou não? O limite: Explicar o que é a patologia. Orientar sobre condutas diferentes entre profissionais, sem jamais dizer “eu faria diferente”. Proteger o médico assistente é proteger o paciente. Quando o médico diz: “não tenho todos os dados para opinar”, demonstra mais competência do que aquele que chuta um diagnóstico durante um jantar ou na fumaça de um fogo de chão.
Ser o tradutor é dar clareza onde há névoa, sem retirar o solo firme sob os pés do colega que está à frente do caso. Risco: “a síndrome do consultório de calçada” – a medicina é um constante exercício entre a etiqueta social e a responsabilidade ética.
O “Porto Seguro Emocional”
Muitas vezes, quem nos aborda não busca uma segunda opinião técnica, mas um validador de angústias. O paciente ou seu familiar está vulnerável. Nesse momento, o médico-amigo deve atuar como o porto seguro: validar o medo, acolher a incerteza e reforçar a importância da confiança na equipe que detém a responsabilidade legal e clínica.
Regras de Ouro para a Fronteira Ética
Para o médico e para a sociedade, vale lembrar:
No fim das contas, nossa maior ajuda fora do hospital não é a prescrição, mas a orientação. Ser o guia que aponta o caminho da segurança, sem tentar dirigir o carro no lugar do colega que já está ao volante. Espero que meus 56 anos de Medicina tragam mais Luz, ética, responsabilidade e entendimento. Finalizo com o Valor do Silêncio: ouvir mais e falar menos!
Z 2026.08.18 – O Médico de Plantão na Vida
Entre o Jaleco e a Amizade
Edson Olimpio – Crônicas & Agudas
“Aposto” que você percebeu as mudanças no Brasil em que sobrevivemos. Pois é, “Bet” vem do inglês e significa “aposta”. Existe aposta que não seja um jogo de azar? Observe que as centenas de empresas de apostas virtuais, pela internet, usa um qualificativo ilusório: “casa de apostas”. Isso inspira e cria o álibi, a estratégia de induzir que é algo “bom” (casa: lar, reduto da família). O brasileiro é um apostador nato. Seu DNA vem de Portugal: a galera do Cabral apregoou “em se plantando tudo dá”. E deu realmente? – Portugal não deu certo nem em Portugal. Sim ou não?
Apostas e Loterias.
Bicheiros e jogo do “bixo”. Loterias estaduais e federais. Mega sena (Sena – um vencedor; daí não ter Mega Rubinho) e uma barca de loterias e ganhadores compulsórios – sim há quem ganhe repetidamente – “muita sorte” (?). E arrombaram os portos para as BET, centenas delas. Risco zero, como tudo de eletrônico (kkkk). Ah, quase esqueci dos bingos – coisas de idosos sem ter o que fazer, mas já que gostam de perder dinheiro, veio o “golpe do INSS” (Lulinha & Careca Group?).
Apostar em Político.
O brasileiro adora apostar em político – “ele rouba, mas faz” (mais roubos, mais corrupção, mais enriquecimento ilícito). A criatura não tem capacidade de administrar um carrinho de pipocas, mas será um bom vereador, prefeito, deputado… Se tiver um sindicato na pressão, pode ser até presidente (Uhuuu!). Apostamos que repetir o mesmo erro teremos resultados de sorte grande. Repetimos a defecada esperando um jantar típico do Planalto. Observe áreas do Brasil que trafegam historicamente na contramão da mínima razão, do singelo bom senso, e repetidamente votam apostando nas biscas ou escórias do pior atraso e corrupção. Enquanto o Brasil que trabalha, levanta de madrugada, esfola o lombo na lotação e vê a família sofrer pela falta daquilo que o governo (aposta) entrega para hordas de vagabundos e corruptos (lembra alguém?) que desprezam um emprego formal, de “carteira assinada” (ou assassinada?) para curtir a rede social nas redes das bolsas sociais. Inclusive alimentando o vício das drogas! Vai que não sabia da turma que pega nossos sofridos pilas para se drogarem?
Apostar diuturnamente.
Centenas, milhares de estupros e crianças que desaparecem. Assassinatos e pedofilia como apostar no volante da loteria (do azar). Sair para trabalhar ou para algum escasso lazer, sem a certeza de voltar ao lar, vivo ou mutilado física e mentalmente. São apostas do dia a dia. A empresa que aposta se consegue manter o trabalho e a produção assediada pela corrupção e guilhotina fiscal. O vivente que faz uma compra parcelada apostando em pagar com seu suado trabalho… Aposte que amanhã terá comida e saúde para a família. Sim ou não?
Apostar na justiça.
E a justiça? Ou a injustiça? Como o governador carioca (Castro) mostrou sobre as fatídicas “audiências de custódia” e a legislação feita e manipulada para proteger as “vítimas da sociedade”: “a polícia prende dezenas de vezes e os criminosos estão soltos no dia seguinte” – sob a orientação e auspícios dos “especialistas da Globo” (apoio mudo da OAB?). Uns buscam a loteria judiciária para depredar o patrão que lhe dá emprego. A “letra fria da lei” está comatosa em algum freezer, pois as decisões são interpretativas (acorda! Se não sabia). Vide a corte suprema em que vários expoentes do Direito enxergam que ela navega pela contramão da Esquerda. Circunstancial? Evolutiva?
Discute-se a “insegurança judicial” do térreo à cobertura, do abigeato à Lava Jato? Se cair nesse carrossel lotérico, o traficante está num iate e o cidadão pai, esposo, chefe de família está no necrotério com a aposta de liberar o corpo “brevemente” para a família sepultar. Sem apostar numa justiça real que mesmo que tardasse, aconteceria! Aconteceria? Sim ou não, enquanto vivente?
2026.03.10 – BRASIL BET – Edson Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
Jornal Opinião de Viamão
Quem nunca foi a uma carreira não sabe que um pastel também pode contar a história de um povo. Naquele tempo, quando Viamão ainda guardava mais campo que cidade e os ventos pareciam vir soprados das velhas trincheiras farroupilhas na Cruz da Tarumã, o domingo de carreira era quase uma missa campeira. Só que, no lugar dos sinos, eram os relinchos; no lugar do altar, a cancha reta; e, no lugar da comunhão, um pastel fumegante acompanhado de guaraná gelado. Sem surfar no saudosismo, mas é o encantamento na memória de guri viamonense, neto do vô Olympio, e das avós Celina e Adiles.
A cancha amanhecia vazia, comprida como promessa de político e reta como espada desembainhada. Uma faixa de areia castigada pelos cascos e ladeada por fiapos de grama que insistiam em sobreviver à passagem dos pingos. Mas bastava o sol subir um pouco para o mundo inteiro desembocar ali.
Vinham caminhões carregando cavalos de Carazinho, Vacaria, Osório, Santo Antônio, Gravataí e de todas as querências que ainda acreditavam que um bom pingo valia mais que um discurso bonito e um trono no cemitério. Os animais desciam reluzentes, de músculos tremendo sob o couro lustroso, enquanto treinadores e amadrinhadores corriam de um lado para outro tentando convencer algum redomão nervoso de que a glória estava a poucos metros dali – num tiro de garra e suor de homem e animal.
Os jóqueis eram magros como taquaras, chamados de ‘pau-de-virar-tripa’. Vestiam sedas coloridas e carregavam no olhar aquela mistura de coragem e medo que só existe quando o homem sabe que vai desafiar a sorte. Alguns concentrados. Outros mais interessados no desfile das gurias (‘tesão de carreira’) do que na corrida que os esperava. E o povo chegava. Chegava de carroça, a cavalo, de caminhão ou a pé. Chegava para apostar. Apostava-se dinheiro, naturalmente. Mas também se apostava ovelhas, novilhas, cavalos, carreteiros e até pedaços de campo. Havia quem apostasse apenas a honra, e essa era quase sempre a aposta mais cara. Quando não a mais baixa!
No meio daquela multidão caminhavam os guris vendedores de pastel.
Tinham uma cesta dependurada no braço, coberta por um pano branco de saco de farinha do velho Moinho Esperança. Debaixo do pano repousava um tesouro dourado: pastéis fritos na banha de porco, com massa sovada na pinga da boa para criar aquelas bolhas crocantes que estalavam nos dentes e deixavam gordura escorrendo pelos cantos da felicidade. O aroma atravessava a cancha inteira. Até cavalo parecia sentir. Quando não fungava à proximidade do pastel.
— Pastel quente! Pastel quente!
E lá vinham eles, pequenos comerciantes da infância, disputando freguesia com mais empenho que muito candidato em ano eleitoral. Os vendedores mais velhos carregavam os pilas dobrados ao comprido entre os dedos da mão esquerda. Um entre cada vão. Faziam troco sem olhar, enquanto a outra mão entregava pastel e recolhia moedas. Mais adiante, os cochos de tijolos guardavam barras de gelo cobertas por serragem. Dentro deles dormiam cervejas e garrafas de guaraná tão frias que suavam antes mesmo de serem abertas. Ah, também as “gasosas”.
Z64 2026.08.04 – Pastel de Carreira – Edson Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
Pastel de Carreira! – Final
Nas sombras dos costeados, a fumaça dos churrascos desenhava nuvens particulares. Costelas gordas negaceavam sobre valas de brasas. Em tambores cortados ao meio, homens penteavam carnes com a paciência dos artistas. Farinha de mandioca havia à vontade, porque gaúcho que se preza respeita a carne, mas nunca despreza o acompanhamento. Enquanto isso, o velho Nico circulava. Baixo, barrigudo e dono de uma voz fina que cortava o ar como faca correntina ou navalha de bordel.
— Dobra pra mim! Dobra tudo!
E dobrava mesmo. Principalmente quando corria algum cavalo de sua estirpe. Ninguém sabia ao certo se era coragem ou loucura. Talvez as duas coisas juntas. Longe da raia principal, outros jogavam osso, outros a carpeta sobre um pala estendido no chão. Raros ganhavam o suficiente para comprar um lote. Outros perdiam o que tinham e o que ainda nem possuíam – como a lavoura por colher. Havia quem saísse rico. Havia quem saísse devendo a própria alma. Então vinha o silêncio. Aquele silêncio estranho que só existe segundos antes da largada.
Os cavalos alinhados. Os jóqueis encolhidos. O povo prendendo a respiração. E, de repente, o estampido. A cancha explodia. Relhos zuniam no vento. Homens gritavam. Mulheres berravam nomes de cavalos como quem invoca santos. Poeira levantava em redemoinhos. Alguns jóqueis distribuíam chicotadas não apenas no próprio pingo, mas também nos adversários, conforme permitia a rudeza dos costumes antigos.
Num instante tudo acabava. O vencedor seguia cercado de abraços. O derrotado encontrava desculpas com o medo de vingança por companheiro. E a multidão voltava para os pastéis. Porque a verdade é que a carreira podia durar segundos. Mas o domingo inteiro pertencia ao convívio. Ao gaiteiro puxando uma vaneira. Um mulato de dente de ouro dedilhando saudades nas cordas do violão. Ao namoro escondido nos taquarais depois do cair da tarde. Às promessas de amor feitas sobre pelegos e esquecidas antes da próxima lua. À criançada correndo descalça entre os carros e cavalos, sonhando um dia montar os campeões que via passar.
Hoje muitas daquelas canchas desapareceram. Estão escassas como vergonha na cara, e homem que não se envergonha de não prover o sustento da família e ficar aboletado numa “cesta” .
A carreira espelhava o culto banhado no suor do desafio, embevecido pela nostalgia de tempos do ‘fio de bigode’, curtido na coragem de tempos remotos com a bandeira do “meu tempo”… No entrevero das comitivas, de tantas honras enterradas aos 7 pés de profundidade, do berro de .38 ao planchaço do marca-touro na paleta do desafeto… Ao humor em versos cantados numa trova em que a rima evoluía num trago liso numa garrafa de butiás bem curtidos. Uma lenda revela que havia um padre que escorava a aposta num cavalo que ele dizia ser o feitio do cavalo de São Jorge. Muitos beatos não iam nessa milonga, pois o padre empoeirava a batina e ‘neca’ de ganhar.
A grama cobriu rastros. O tempo levou cavalos, apostadores, músicos e valentões. Mas ainda existe uma lembrança teimosa que resiste ao esquecimento. Ela não tem ferraduras. Não veste seda. Não carrega relho. Cabe dentro de uma cesta coberta por um pano branco. Tem cheiro de banha quente, massa crocante e infância. Porque, quando a memória abre suas porteiras, o primeiro a cruzar o corredor do tempo não é o cavalo vencedor: É sempre o pastel de carreira!
Z64 2026.08.11 – Pastel de Carreira – Final – Edson Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
O Martírio de Jesus Cristo Parte 3 – Final
Com certeza. É um exercício fascinante olhar para um dos momentos mais emblemáticos da história sob a lente da realidade material daquela época. A fé nos dá o “porquê”, mas a arqueologia e a história militar nos dão o “como”. E a Medicina mostra os meandros da fisiologia humana.
O Cantil de Ferro e o Cálice da Profecia
Sob o sol implacável da Judeia, o ar no Gólgota estava carregado de poeira e do cheiro metálico de sangue e suor. Para os legionários romanos ali de guarda, aquela era apenas mais uma sexta-feira de execução em uma província turbulenta. Eles não estavam lá por ódio pessoal, mas por dever — e o dever sob o calor do Oriente Médio exigia hidratação. Ao pé da cruz, não havia cálices de prata ou vinhos finos de Roma, da Itália ou das terras conquistadas. O que havia era um vaso de barro comum, contendo a ração diária daqueles homens: a Posca.
Para um observador moderno, o termo “vinagre” soa como um castigo adicional, um insulto ácido a um homem moribundo. Contudo, para o centurião e seus subordinados, a Posca era a tecnologia de sobrevivência do Império. Aquela mistura de vinho azedo e água era o que impedia a tropa de sucumbir à cólera e à desidratação nas águas infectas. Era a bebida da base da pirâmide: do soldado que marchava 30 quilômetros por dia e do escravo que labutava nas minas.
Quando um dos soldados molhou a esponja e a ergueu num ramo de hissopo, ocorreu um encontro silencioso entre duas realidades:
A arqueologia nos ensina que o “vinagre” não era um veneno, mas o sustento do exército mais poderoso do mundo. A religião nos ensina que aquele momento era o ápice de um sacrifício. A janela que se abre entre as duas é a da humanidade compartilhada.
Ao aceitar a Posca, Jesus não estava apenas cumprindo uma escritura; Ele estava bebendo a bebida mais comum, amarga e necessária dos homens mais simples de Seu tempo. O sagrado não rejeitou o profano; ele o absorveu. Ele o transformou!
O que essa janela nos revela?
Essa perspectiva remove a rígida caricatura do “soldado cruel” que oferece algo intragável e coloca no lugar um cenário muito mais profundo: o de um condenado compartilhando a última gota de humanidade com seus executores, através de uma mistura de água e ‘acetum’ que era, ironicamente, a única coisa capaz de mantê-lo consciente por mais uns instantes.
Assim, concluímos essa saga de Amor e Respeito em três Crônicas, dando a mim e a você a chance de conhecer o desconhecido e traçar linhas de entendimento, de compreensão numa relação de tempo e espaço, de Fé e de Esperança, e de inesgotável Gratidão!
2026.03.31 – Posca ou Vinagre Puro 3
O Martírio de Jesus Cristo – Parte 3 – Final
HISTÓRIA da MEDICINA