“Earworm” (“Verme de Ouvido”) – 1
Minha sogra, Dona Palmira, do alto de seus 94 anos de idade, traz pérolas que nos fazem refletir e identificar-se com seus relatos. O sogro Waldeliro, já falecido, cultivava e cantarolava alguns trechos musicais repetida e invariavelmente. A maioria das pessoas têm essa propriedade, ou habilidade restrita, pois outros cantam a música de “cabo a rabo” (gauchesco!). Tenho essa propriedade de trechos, fragmentos de músicas virem tamborilar dentro da minha cabeça. E ali se implantam e retornam desde o dia a dia, nas crônicas e ao falar em público. Sou o criador de usar trechos ou músicas e trazer a minha versão, a minha leitura e interpretação daquele momento. Os cientistas chamam isso de “verme do Ouvido” – termo feio, mas…
“Pela luz dos teus olhos / Eu acho meu amor que só se pode achar / Que a luz dos olhos meus / Precisa se casar com a luz dos olhos teus.” – Vinícius de Moraes (Pela luz dos olhos teus).
O saudoso “Poetinha” traz a parceria perfeita. Não é somente um olhar para o outro, mas fazer e trazer com que as visões do mundo (do universo?) se casem e sigam juntas na mesma direção e plantar e colher um para o outro. Sempre! A parceria de uma vida.
“Vem sentir o calor dos lábios meus | À procura dos teus | Vem aplacar essa chama | Que me devora o peito | E vem dizer que você é minha louca amada | Pois bem sabe que eu sou teu amado.” – Eterno Pixinguinha e João de Barro (Carinhoso)
No coração de muitos é um outro hino nacional. É a tradução e amparo da “sensualidade sútil”. O pedido pelo “calor dos lábios teus” é de uma elegância ímpar, mesclando, unindo o desejo físico ao respeito e carinho com a amada. Deus do céu! O casamento de almas.
“Os detalhes tão pequenos de nós dois / São coisas muito grande para esquecer / E a toda hora vão estar presentes / Você vai ver.” – Roberto Carlos em Detalhes.
Estão sentido a emoção e o fervilhar em seus peitos. A sensualidade nos Detalhes? Roberto faz uma obra-prima da “saudade antecipada”. Sente algo tão especial, profundo (místico?) que penetra, se entranha nos objetos, nos hábitos e no cheiro, tornando a parceria algo onipresente, mesmo no silêncio consentido e amparado pelo amor de nós dois.
Mestres escrevem para a alma, para o espírito trilhar o universo do tempo em somente algo que é eterno – o Amor. Nos trazem coragem de sentir, alegria de ser, felicidade de compartilhar e ânsia de encontrar. Ele traduzem e escrevem para o Sentimento e não para o Momento, somente. Na sua Mala de Garupa estão: a Natureza com chuva, sol, estrelas e flores; o Corpo Sutil no olhar, no sorriso, na voz e no calor; e o Tempo – o “sempre”, o “nunca mais” e o “para toda a vida”. Eu sinto assim e você?
Essa música de tamborilar, de batucar na minha cabeça funciona como um tipo de mantra de proteção e amor para o casal. Ela, a música, cria um mundo onde só existem os dois. Distante dos ruídos tempestuosos de outras “músicas”. Sim ou Não?
Para mim, como para a Dona Palmira, com seu amor que a aguarda, viaja e revive tempos que trazem os verdadeiros e puros tesouros da alma, num baú sagrado de preciosidades que a maioria não abrirá e não terá a graça do amor recebido na aridez desse deserto de desamor da sociedade. Se você me acompanha, sinta que isso, entrando no seu ser, a Luz irá te iluminar.
Vamos continuar nesse tema? Aguarde e vá para a próxima crônica.
2026.01.05 – “Earworm” 1 (“Verme de Ouvido”)
Edson Olimpio – Crônicas & Agudas