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Payada – O Relógio de Sangue!

Payada – O Relógio de Sangue
(Fé e Ciência em contraponto)

FÉ:
Eu venho dos tempos antigos,
quando o verbo era caminho,
sem bisturi nem carinho
de lente vendo perigos.
No oitavo dia, eu digo,
há um pacto que não falha,
é Deus quem marca essa trilha
no corpo recém-chegado:
o tempo já foi traçado
antes da mente que o valha.

CIÊNCIA:
Te escuto, velha parceira,
com teu respeito profundo,
mas eu desvendo esse mundo
com prova limpa e certeira.
No sangue há uma bandeira
que o tempo bem determina:
no oitavo, a protrombina
sobe além do que é comum,
cento e dez — e mais nenhum
momento igual se destina.

FÉ:
E quem soprou esse compasso
no peito da criação?
Quem deu ao tempo a razão
de dar tão justo esse passo?
Não vês, por trás do traço,
uma mão que antecedeu?
O que hoje o homem leu
já foi mistério guardado:
o oito já era marcado
antes do sábio ser teu.

CIÊNCIA:
Não nego o assombro, parceira,
nem fecho os olhos ao todo,
mas sigo passo a passo o modo
que a vida mostra na esteira.
A flora ainda é primeira,
a vitamina demora,
dois ao cinco a vida chora,
mas no oitavo há proteção:
é biologia em ação,
sem milagre — ou com, quem fora?

FÉ:
Pois talvez seja esse o ponto
onde a peleia se acalma:
tu medes o pulso da alma,
eu sinto o que não te conto.
Se o número vem tão pronto,
se o risco vira guarida,
talvez a mesma medida
nos guie por diferente:
tu chamas dado evidente,
eu chamo sopro da vida.

CIÊNCIA:
Então, que siga esse acordo
sem cerca entre pensamento,
pois busco no experimento
o que teu símbolo é bordo.
Se há ordem por trás do acordo,
não me cabe negar:
apenas sigo a estudar
o que já veio traçado —
talvez eu leia atrasado
o que tu soubeste escutar.

FÉ (fechando):
Então sentemos, irmã,
na mesma roda de mate,
sem que uma à outra maltrate
na busca do amanhã.
Pois no sangue que se irmana
há mais que carne e razão:
há tempo, pulso e canção
num relógio sem fronteira…
onde Deus — ou a primeira —
fala em ciência e oração.

2026.02.24 – O Relógio de Sangue

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

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