Quem nunca foi a uma carreira não sabe que um pastel também pode contar a história de um povo. Naquele tempo, quando Viamão ainda guardava mais campo que cidade e os ventos pareciam vir soprados das velhas trincheiras farroupilhas na Cruz da Tarumã, o domingo de carreira era quase uma missa campeira. Só que, no lugar dos sinos, eram os relinchos; no lugar do altar, a cancha reta; e, no lugar da comunhão, um pastel fumegante acompanhado de guaraná gelado. Sem surfar no saudosismo, mas é o encantamento na memória de guri viamonense, neto do vô Olympio, e das avós Celina e Adiles.
A cancha amanhecia vazia, comprida como promessa de político e reta como espada desembainhada. Uma faixa de areia castigada pelos cascos e ladeada por fiapos de grama que insistiam em sobreviver à passagem dos pingos. Mas bastava o sol subir um pouco para o mundo inteiro desembocar ali.
Vinham caminhões carregando cavalos de Carazinho, Vacaria, Osório, Santo Antônio, Gravataí e de todas as querências que ainda acreditavam que um bom pingo valia mais que um discurso bonito e um trono no cemitério. Os animais desciam reluzentes, de músculos tremendo sob o couro lustroso, enquanto treinadores e amadrinhadores corriam de um lado para outro tentando convencer algum redomão nervoso de que a glória estava a poucos metros dali – num tiro de garra e suor de homem e animal.
Os jóqueis eram magros como taquaras, chamados de ‘pau-de-virar-tripa’. Vestiam sedas coloridas e carregavam no olhar aquela mistura de coragem e medo que só existe quando o homem sabe que vai desafiar a sorte. Alguns concentrados. Outros mais interessados no desfile das gurias (‘tesão de carreira’) do que na corrida que os esperava. E o povo chegava. Chegava de carroça, a cavalo, de caminhão ou a pé. Chegava para apostar. Apostava-se dinheiro, naturalmente. Mas também se apostava ovelhas, novilhas, cavalos, carreteiros e até pedaços de campo. Havia quem apostasse apenas a honra, e essa era quase sempre a aposta mais cara. Quando não a mais baixa!
No meio daquela multidão caminhavam os guris vendedores de pastel.
Tinham uma cesta dependurada no braço, coberta por um pano branco de saco de farinha do velho Moinho Esperança. Debaixo do pano repousava um tesouro dourado: pastéis fritos na banha de porco, com massa sovada na pinga da boa para criar aquelas bolhas crocantes que estalavam nos dentes e deixavam gordura escorrendo pelos cantos da felicidade. O aroma atravessava a cancha inteira. Até cavalo parecia sentir. Quando não fungava à proximidade do pastel.
— Pastel quente! Pastel quente!
E lá vinham eles, pequenos comerciantes da infância, disputando freguesia com mais empenho que muito candidato em ano eleitoral. Os vendedores mais velhos carregavam os pilas dobrados ao comprido entre os dedos da mão esquerda. Um entre cada vão. Faziam troco sem olhar, enquanto a outra mão entregava pastel e recolhia moedas. Mais adiante, os cochos de tijolos guardavam barras de gelo cobertas por serragem. Dentro deles dormiam cervejas e garrafas de guaraná tão frias que suavam antes mesmo de serem abertas. Ah, também as “gasosas”.
Z64 2026.08.04 – Pastel de Carreira – Edson Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
Pastel de Carreira! – Final
Nas sombras dos costeados, a fumaça dos churrascos desenhava nuvens particulares. Costelas gordas negaceavam sobre valas de brasas. Em tambores cortados ao meio, homens penteavam carnes com a paciência dos artistas. Farinha de mandioca havia à vontade, porque gaúcho que se preza respeita a carne, mas nunca despreza o acompanhamento. Enquanto isso, o velho Nico circulava. Baixo, barrigudo e dono de uma voz fina que cortava o ar como faca correntina ou navalha de bordel.
— Dobra pra mim! Dobra tudo!
E dobrava mesmo. Principalmente quando corria algum cavalo de sua estirpe. Ninguém sabia ao certo se era coragem ou loucura. Talvez as duas coisas juntas. Longe da raia principal, outros jogavam osso, outros a carpeta sobre um pala estendido no chão. Raros ganhavam o suficiente para comprar um lote. Outros perdiam o que tinham e o que ainda nem possuíam – como a lavoura por colher. Havia quem saísse rico. Havia quem saísse devendo a própria alma. Então vinha o silêncio. Aquele silêncio estranho que só existe segundos antes da largada.
Os cavalos alinhados. Os jóqueis encolhidos. O povo prendendo a respiração. E, de repente, o estampido. A cancha explodia. Relhos zuniam no vento. Homens gritavam. Mulheres berravam nomes de cavalos como quem invoca santos. Poeira levantava em redemoinhos. Alguns jóqueis distribuíam chicotadas não apenas no próprio pingo, mas também nos adversários, conforme permitia a rudeza dos costumes antigos.
Num instante tudo acabava. O vencedor seguia cercado de abraços. O derrotado encontrava desculpas com o medo de vingança por companheiro. E a multidão voltava para os pastéis. Porque a verdade é que a carreira podia durar segundos. Mas o domingo inteiro pertencia ao convívio. Ao gaiteiro puxando uma vaneira. Um mulato de dente de ouro dedilhando saudades nas cordas do violão. Ao namoro escondido nos taquarais depois do cair da tarde. Às promessas de amor feitas sobre pelegos e esquecidas antes da próxima lua. À criançada correndo descalça entre os carros e cavalos, sonhando um dia montar os campeões que via passar.
Hoje muitas daquelas canchas desapareceram. Estão escassas como vergonha na cara, e homem que não se envergonha de não prover o sustento da família e ficar aboletado numa “cesta” .
A carreira espelhava o culto banhado no suor do desafio, embevecido pela nostalgia de tempos do ‘fio de bigode’, curtido na coragem de tempos remotos com a bandeira do “meu tempo”… No entrevero das comitivas, de tantas honras enterradas aos 7 pés de profundidade, do berro de .38 ao planchaço do marca-touro na paleta do desafeto… Ao humor em versos cantados numa trova em que a rima evoluía num trago liso numa garrafa de butiás bem curtidos. Uma lenda revela que havia um padre que escorava a aposta num cavalo que ele dizia ser o feitio do cavalo de São Jorge. Muitos beatos não iam nessa milonga, pois o padre empoeirava a batina e ‘neca’ de ganhar.
A grama cobriu rastros. O tempo levou cavalos, apostadores, músicos e valentões. Mas ainda existe uma lembrança teimosa que resiste ao esquecimento. Ela não tem ferraduras. Não veste seda. Não carrega relho. Cabe dentro de uma cesta coberta por um pano branco. Tem cheiro de banha quente, massa crocante e infância. Porque, quando a memória abre suas porteiras, o primeiro a cruzar o corredor do tempo não é o cavalo vencedor: É sempre o pastel de carreira!
Z64 2026.08.11 – Pastel de Carreira – Final – Edson Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão