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O Médico de Plantão na Vida! Entre o Jaleco e a Amizade

O Médico de Plantão na Vida! Entre o Jaleco e a Amizade

A Medicina é uma das poucas profissões que o indivíduo não “tira” ao chegar em casa. Para a sociedade, o diploma é uma tatuagem indelével (O Diploma de Médico pertence à Jesus!” – Dra. Marlene Nobre). Do churrasco de domingo à fila do cinema, o médico é frequentemente convocado a dar “só uma olhadinha” em um exame ou a opinar sobre uma conduta alheia. É aqui que nasce um dos maiores desafios éticos da nossa jornada: o risco da opinião descontextualizada.

O Constrangimento do “Parecer por Amizade”

Muitas vezes, familiares e amigos carecem do senso crítico necessário para entender que Medicina não é palpite. Uma conduta cirúrgica ou um diagnóstico complexo não são frutos de uma intuição momentânea, mas de uma anamnese rigorosa e de exames físicos que o ambiente informal não permite. O constrangimento é real: se o médico se nega a falar, soa arrogante; se fala demais, fere a ética e, pior, pode induzir ao erro.

O Papel do “Tradutor Benevolente”

Quando somos consultados sobre um paciente que não é nosso, nossa função principal não é a de um juiz da conduta alheia, mas a de um tradutor. A missão: Decifrar o “médiquês” hermético que, por vezes, a equipe assistente não conseguiu simplificar. Frequente? Sim ou não? O limite: Explicar o que é a patologia. Orientar sobre condutas diferentes entre profissionais, sem jamais dizer “eu faria diferente”. Proteger o médico assistente é proteger o paciente. Quando o médico diz: “não tenho todos os dados para opinar”, demonstra mais competência do que aquele que chuta um diagnóstico durante um jantar ou na fumaça de um fogo de chão.

Ser o tradutor é dar clareza onde há névoa, sem retirar o solo firme sob os pés do colega que está à frente do caso. Risco: “a síndrome do consultório de calçada” – a medicina é um constante exercício entre a etiqueta social e a responsabilidade ética.

O “Porto Seguro Emocional”

Muitas vezes, quem nos aborda não busca uma segunda opinião técnica, mas um validador de angústias. O paciente ou seu familiar está vulnerável. Nesse momento, o médico-amigo deve atuar como o porto seguro: validar o medo, acolher a incerteza e reforçar a importância da confiança na equipe que detém a responsabilidade legal e clínica.

Regras de Ouro para a Fronteira Ética

Para o médico e para a sociedade, vale lembrar:

  1. A Medicina é presencial: Diagnóstico sem exame físico e histórico completo é, no máximo, uma hipótese estatística.
  2.  
  3. Respeito à Hierarquia Clínica: O médico assistente é quem detém o vínculo de responsabilidade. Interferir sem conhecê-lo é deslealdade profissional. Evitar radicalmente a “opinião de orelha” – uma “segunda opinião espúria” – isso é Solidariedade Profissional.
  4.  
  5. O Silêncio Estratégico: Saber dizer “sobre isso, o melhor é questionar o cirurgião dele” ou “seu médico” é um ato de prudência, não de omissão.

No fim das contas, nossa maior ajuda fora do hospital não é a prescrição, mas a orientação. Ser o guia que aponta o caminho da segurança, sem tentar dirigir o carro no lugar do colega que já está ao volante. Espero que meus 56 anos de Medicina tragam mais Luz, ética, responsabilidade e entendimento. Finalizo com o Valor do Silêncio: ouvir mais e falar menos!

Z  2026.08.18 – O Médico de Plantão na Vida

Entre o Jaleco e a Amizade

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

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O Pastel de Carreira! 1 de 2

O Pastel de Carreira! 1 de 2

Quem nunca foi a uma carreira não sabe que um pastel também pode contar a história de um povo. Naquele tempo, quando Viamão ainda guardava mais campo que cidade e os ventos pareciam vir soprados das velhas trincheiras farroupilhas na Cruz da Tarumã, o domingo de carreira era quase uma missa campeira. Só que, no lugar dos sinos, eram os relinchos; no lugar do altar, a cancha reta; e, no lugar da comunhão, um pastel fumegante acompanhado de guaraná gelado. Sem surfar no saudosismo, mas é o encantamento na memória de guri viamonense, neto do vô Olympio, e das avós Celina e Adiles.

A cancha amanhecia vazia, comprida como promessa de político e reta como espada desembainhada. Uma faixa de areia castigada pelos cascos e ladeada por fiapos de grama que insistiam em sobreviver à passagem dos pingos. Mas bastava o sol subir um pouco para o mundo inteiro desembocar ali.

Vinham caminhões carregando cavalos de Carazinho, Vacaria, Osório, Santo Antônio, Gravataí e de todas as querências que ainda acreditavam que um bom pingo valia mais que um discurso bonito e um trono no cemitério. Os animais desciam reluzentes, de músculos tremendo sob o couro lustroso, enquanto treinadores e amadrinhadores corriam de um lado para outro tentando convencer algum redomão nervoso de que a glória estava a poucos metros dali – num tiro de garra e suor de homem e animal.

Os jóqueis eram magros como taquaras, chamados de ‘pau-de-virar-tripa’. Vestiam sedas coloridas e carregavam no olhar aquela mistura de coragem e medo que só existe quando o homem sabe que vai desafiar a sorte. Alguns concentrados. Outros mais interessados no desfile das gurias (‘tesão de carreira’) do que na corrida que os esperava. E o povo chegava. Chegava de carroça, a cavalo, de caminhão ou a pé. Chegava para apostar. Apostava-se dinheiro, naturalmente. Mas também se apostava ovelhas, novilhas, cavalos, carreteiros e até pedaços de campo. Havia quem apostasse apenas a honra, e essa era quase sempre a aposta mais cara. Quando não a mais baixa!

No meio daquela multidão caminhavam os guris vendedores de pastel.

Tinham uma cesta dependurada no braço, coberta por um pano branco de saco de farinha do velho Moinho Esperança. Debaixo do pano repousava um tesouro dourado: pastéis fritos na banha de porco, com massa sovada na pinga da boa para criar aquelas bolhas crocantes que estalavam nos dentes e deixavam gordura escorrendo pelos cantos da felicidade. O aroma atravessava a cancha inteira. Até cavalo parecia sentir. Quando não fungava à proximidade do pastel.

— Pastel quente! Pastel quente!

E lá vinham eles, pequenos comerciantes da infância, disputando freguesia com mais empenho que muito candidato em ano eleitoral. Os vendedores mais velhos carregavam os pilas dobrados ao comprido entre os dedos da mão esquerda. Um entre cada vão. Faziam troco sem olhar, enquanto a outra mão entregava pastel e recolhia moedas. Mais adiante, os cochos de tijolos guardavam barras de gelo cobertas por serragem. Dentro deles dormiam cervejas e garrafas de guaraná tão frias que suavam antes mesmo de serem abertas. Ah, também as “gasosas”.

Z64 2026.08.04 – Pastel de Carreira – Edson Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

Pastel de Carreira! – Final

Nas sombras dos costeados, a fumaça dos churrascos desenhava nuvens particulares. Costelas gordas negaceavam sobre valas de brasas. Em tambores cortados ao meio, homens penteavam carnes com a paciência dos artistas. Farinha de mandioca havia à vontade, porque gaúcho que se preza respeita a carne, mas nunca despreza o acompanhamento. Enquanto isso, o velho Nico circulava. Baixo, barrigudo e dono de uma voz fina que cortava o ar como faca correntina ou navalha de bordel.

— Dobra pra mim! Dobra tudo!

E dobrava mesmo. Principalmente quando corria algum cavalo de sua estirpe. Ninguém sabia ao certo se era coragem ou loucura. Talvez as duas coisas juntas. Longe da raia principal, outros jogavam osso, outros a carpeta sobre um pala estendido no chão. Raros ganhavam o suficiente para comprar um lote. Outros perdiam o que tinham e o que ainda nem possuíam – como a lavoura por colher. Havia quem saísse rico. Havia quem saísse devendo a própria alma. Então vinha o silêncio. Aquele silêncio estranho que só existe segundos antes da largada.

Os cavalos alinhados. Os jóqueis encolhidos. O povo prendendo a respiração. E, de repente, o estampido. A cancha explodia. Relhos zuniam no vento. Homens gritavam. Mulheres berravam nomes de cavalos como quem invoca santos. Poeira levantava em redemoinhos. Alguns jóqueis distribuíam chicotadas não apenas no próprio pingo, mas também nos adversários, conforme permitia a rudeza dos costumes antigos.

Num instante tudo acabava. O vencedor seguia cercado de abraços. O derrotado encontrava desculpas com o medo de vingança por companheiro. E a multidão voltava para os pastéis. Porque a verdade é que a carreira podia durar segundos. Mas o domingo inteiro pertencia ao convívio. Ao gaiteiro puxando uma vaneira. Um mulato de dente de ouro dedilhando saudades nas cordas do violão.  Ao namoro escondido nos taquarais depois do cair da tarde. Às promessas de amor feitas sobre pelegos e esquecidas antes da próxima lua. À criançada correndo descalça entre os carros e cavalos, sonhando um dia montar os campeões que via passar.

Hoje muitas daquelas canchas desapareceram. Estão escassas como vergonha na cara, e homem que não se envergonha de não prover o sustento da família e ficar aboletado numa “cesta” .

A carreira espelhava o culto banhado no suor do desafio, embevecido pela nostalgia de tempos do ‘fio de bigode’, curtido na coragem de tempos remotos com a bandeira do “meu tempo”… No entrevero das comitivas, de tantas honras enterradas aos 7 pés de profundidade, do berro de .38 ao planchaço do marca-touro na paleta do desafeto… Ao humor em versos cantados numa trova em que a rima evoluía num trago liso numa garrafa de butiás bem curtidos. Uma lenda revela que havia um padre que escorava a aposta num cavalo que ele dizia ser o feitio do cavalo de São Jorge. Muitos beatos não iam nessa milonga, pois o padre empoeirava a batina e ‘neca’ de ganhar.

A grama cobriu rastros. O tempo levou cavalos, apostadores, músicos e valentões. Mas ainda existe uma lembrança teimosa que resiste ao esquecimento. Ela não tem ferraduras. Não veste seda. Não carrega relho. Cabe dentro de uma cesta coberta por um pano branco. Tem cheiro de banha quente, massa crocante e infância. Porque, quando a memória abre suas porteiras, o primeiro a cruzar o corredor do tempo não é o cavalo vencedor: É sempre o pastel de carreira!

Z64 2026.08.11 – Pastel de Carreira – Final – Edson Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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Subir Escadas: 2026.07.28

Um Caminho Simples para uma Vida Mais Longa e Saudável!

Outro dia, acordei com uma lembrança de algo que li na minha distante juventude. Uma pergunta interessante sobre um antigo relato da NASA, das décadas de 1960 e 1970: supostos cartazes nos prédios da agência orientavam astronautas a evitar elevadores e preferir as escadas. A história sugere que cada degrau (subindo ou descendo), sempre adicionaria frações preciosas de tempo à “saúde vital” e à longevidade do vivente.

Embora não tenha encontrado registros históricos precisos que confirmem esses cartazes específicos na NASA (pode ser uma lenda motivacional ou rotina atribuída à disciplina dos astronautas), a mensagem central faz todo o sentido. A ciência moderna corrobora amplamente os benefícios de subir e descer escadas.

Estudos recentes, como uma meta-análise apresentada na European Society of Cardiology em 2024, mostram que quem sobe escadas regularmente apresenta 24% menos risco de morte por qualquer causa e 39% menos risco de morte por doenças cardiovasculares. Outro grande estudo de coorte, com mais de 280 mil participantes, indicou que subir mais de cinco lances por dia (cerca de 50 degraus) associa-se a menor mortalidade geral e por câncer, com ganhos estimados em semanas ou meses adicionais de vida saudável. Ufa! Vale muito mesmo e tem todo o respaldo da ciência. Sabedoria complementar: Para subir as escadas da Vida jamais use os ombros e as costas dos outros!

Subir ou descer escadas são exercícios acessíveis, gratuitos e multifuncionais: melhoram o condicionamento cardiovascular, fortalecem pernas e glúteos, aumentam a densidade óssea e ajudam no controle de peso, pressão arterial e glicemia. É um “snack” de atividade física de alta intensidade que cabe na rotina de qualquer um. Eu faço! E você?

Para quem não tem escadas disponíveis ou enfrenta limitações articulares, há excelentes alternativas. A máquina de escada na academia é a mais fiel. Em casa ou no consultório, experimente step-up em um banco firme, caminhada inclinada na esteira, agachamentos, avanços (lunges) e elevação de panturrilhas. Atividades como caminhada rápida em subidas, ciclismo, natação ou pular corda também replicam boa parte dos ganhos. Hora de experimentar!

O importante é manter o movimento vertical ou o esforço similar nas pernas. Como um médico rumo a cem anos de vida e consultório ainda ativo, reforço: movimento é remédio. Porém, antes de iniciar ou intensificar qualquer prática, consulte seu médico, um fisioterapeuta ou um educador físico. Avaliação individual evita lesões, especialmente em joelhos, coluna ou quadril, e permite adequar a intensidade à sua condição atual.

Pequenas escolhas diárias — trocar o elevador pelas escadas quando possível — acumulam grandes resultados ao longo dos anos. Saúde não se conquista apenas com remédios, mas com hábitos consistentes e inteligentes. Semear e colher – para o Bem ou para o Mal!

Cuide-se. E suba um degrau a mais hoje. Seu coração e seu futuro agradecerão!

Z65 2026.07.28 – Subir Escadas – Edson Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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QUANDO A JUSTIÇA PERDE A MEDIDA! 2026.07.21

Há decisões que não erram por ignorância, mas por

excesso de certeza ou crueldade ideológica.

Em 1958, no auge do Grande Salto Adiante, sob a liderança de Mao Tsé-Tung*, a China decidiu que pardais eram inimigos do povo. A justificativa parecia simples: comiam grãos. A solução, mais simples ainda: eliminá-los. O método foi cruel. Não se tratou de caça, mas de exaustão. Milhões de aves foram impedidas de pousar até caírem do céu, mortas pelo cansaço. Foi uma sentença coletiva aplicada sem defesa, sem nuance e sem compreensão do sistema ao qual pertenciam.

O resultado é conhecido: colapso ecológico, explosão de pragas, quebra de safras e fome em escala histórica. Milhões de mortos. Não por falta de ação, mas por ação equivocada — sustentada por uma convicção rígida e por uma justiça sem revisão.

O erro não foi apenas técnico. Foi moral.

Sempre que o poder decide agir sem escutar o todo, transforma correção em violência. E violência, quando legitimada, costuma vir acompanhada de justificativas bem organizadas. A distância no tempo não torna essa história irrelevante. Ao contrário, ela se repete em outras formas.

Hoje, não se exterminam pardais. Mas ainda se aplicam decisões que ignoram proporção. Ainda se confundem rigor com justiça. Ainda se mede o erro sem medir o impacto da punição. Quando uma sentença ultrapassa o indivíduo e atinge sua família, seus filhos, sua possibilidade de recomeço, algo saiu do eixo. A pena deixa de ser instrumento de equilíbrio e passa a ser mecanismo de ampliação do dano.

A lei existe para ordenar. Mas, quando perde a medida, desordena. Não se trata de absolver erros nem de relativizar responsabilidades. Trata-se de lembrar que justiça sem proporção é apenas força com aparência de legitimidade. Há uma diferença fundamental entre o instinto de uma ave e a decisão de um homem. A pomba que pousa sobre uma estátua não ofende; apenas existe. Já o ser humano, quando julga, carrega o peso da escolha — e, com ela, a obrigação de medir consequências.

A história dos pardais deveria ter encerrado uma ilusão: a de que é possível corrigir o mundo por simplificação. Não é. Sistemas complexos não toleram respostas brutais sem cobrar o preço. Sociedades também não. Quando se perde a medida, o dano não é imediato apenas. Ele se prolonga. Espalha-se. Marca gerações.

A fome daquele tempo foi visível. Outras fomes são mais discretas: ausência, ruptura, perda de horizonte. E há uma ainda mais grave — a fome de esperança.

A antiga imagem da pomba que retorna com um sinal de terra firme continua atual. Não como símbolo religioso, mas como advertência: a vida precisa de espaço para continuar. Quando até isso se perde, não restam vencedores.

A história já mostrou o suficiente. O problema não é falta de exemplo.

É a insistência em ignorá-lo.

2026.07.21 – Quando a Justiça perde a Medida

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

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Vivendo no Gulag das Bananas: Crônica de um Sobrevivente 2026.07.14

Vivendo nesta ilha perdida e mal achada nos confins de um oceano de perdição — que alguns insistem, teimam em chamar de pátria —, o vivente acorda com a nítida sensação de que está tentando escapar de um gulag travestido de piquenique. A turbulência por aqui tem mistério e, principalmente, ministério e toga. Para navegar nessas águas revoltas, é preciso ter o couro grosso e o cinismo afiado como adaga missioneira. A correnteza puxa para o fundo, mas o gaudério não se entrega pros homens nem que a vaca tussa o hino nacional. E tem tossido… Nota: GULAG é uma sigla dos campos de concentração soviéticos. Durante Stalin, mais de 20 milhões de seres humanos foram sacrificados pela doutrina comunista.

Neste domingo sagrado, sem o plantão da labuta que me consome os dias, dei-me ao luxo de puxar as cobertas até as dez da manhã. Queria sentir na carcaça o valor da cama de um desses lustrosos e escorregadios que habitam o Monte Olimpo nacional, aquela paragem malcheirosa e pegajosa de onde emanam as ordens que nos custam os olhos da cara. Falando nessa turma, a ciência haverá de inventar um exame clínico para eles: se lhes tiram o sangue, o laboratório acaba fazendo exame de fezes num líquido banhado a uísque e vinho do mais sagrado (ou sangrado para nós?) — sagrado para eles, pois para nós, contribuintes involuntários, o gosto é pura salmoura com fel.

É uma terra exótica essa. Uma ilha de ponta-cabeça onde um tubo de batom é fichado como arma de destruição em massa, e uma bandeira nacional empunhada com uma Bíblia na mão de uma vovó indefesa é classificada como um atentado feroz e terrorista à democracia. Que ilha é essa, pergunta este sobrevivente? Se isso é terrorismo, o bicho-papão anda de pantufas e toma chá de camomila. Para espantar o tédio dessa comédia bufa, liguei a tevê no jogo da seleção. Que barbaridade! Umas biscas fantasiadas de atletas, fazendo de conta que jogam o esporte bretão, quando na verdade seriam ótimos coadjuvantes em partida de frescobol no litoral gaúcho. No comando da galera abonada, o treinador parece um monge da paciência mastigando seu eterno chiclé, enquanto o futebol brasileiro vai pro ralo. Nada é tão ruim que não possa piorar: basta ver o poder de escolha para quem só escolhe o pior. Muito pior! Ou se abstém.

Aproveitando a cama longa e o espelho do banheiro, decidi dar uns cortes no que me resta de “cabelo”. O que outrora foi uma frondosa melena de respeito, hoje empacota um misto de macega brava com gravatá seco. Desconfio, seriamente, que os cabelos cansaram do lado de fora e começaram a crescer para dentro, de tantas rateadas possíveis no cotidiano. Já são quase cem anos na estrada da vida, tomando sol na moleira e encarando as intempéries do tempo. O rumo ao firmamento tem suas fases folclóricas. Meu amigo, o indômito Ninja dos Lençóis — que ao lado do Pedalador Itinerante e do Ninja dos Pelegos forma uma confraria de sobreviventes estoicos —, costuma dizer que, se fôssemos macacos nesta selva moderna, já estaríamos há muito tempo na barriga de um leão. A agilidade sumiu, não dá mais para trepar, principalmente nas árvores para colher os frutos da copa e, lá de baixo, o felino só espia… e nhac!

Ainda assim, não dá para pendurar as chuteiras antes do apito final. O segredo é não inventar muito: se o vivente se aquecer demais antes de entrar em campo na maturidade, corre o risco de queimar a largada ou sair torrado antes do primeiro passe. O tempo passa e a sabedoria manda mudar a diplomacia: depois de certa idade, o sujeito tem que fazer amizade com as formigas e com as minhocas. É bom tratá-las bem desde já, e parar, definitivamente, de espetar a minhoca no anzol. Afinal, a vizinhança futura exige boa convivência.

No fechamento das contas, diante de tanta burocracia que regula até o sopro da vida, restou-me uma dúvida atroz, daquelas que a gente persegue atrás de uma resposta lógica: será que até para a cremação do vivente o sujeito precisa apresentar um laudo de autorização do Corpo de Bombeiros? Do jeito que o gulag funciona, capaz de exigirem o alvará de prevenção contra incêndio para o próprio falecido. Mas enquanto o alvará não vem, sigo tocando o barco, remando na correnteza e rindo na cara do perigo, com o bisturi pronto para descascar as laranjas do destino.

Z65 2026.07.14 – Vivendo no Gulag das Bananas: Crônica de um Sobrevivente!

Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

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Vida Saudável com Intercorrências de Doença ou

Vida Doente com Períodos de Saúde?

Desde criança aprendemos a desejar saúde. Quando alguém espirra, desejamos saúde. Quando alguém adoece, rezamos por saúde. Quando encontramos um amigo, perguntamos pela saúde da família. Mas raramente paramos para refletir sobre uma pergunta simples: vivemos uma vida saudável com alguns períodos de doença ou vivemos uma vida doente com breves períodos de saúde?

O corpo humano é uma obra extraordinária, mas também uma estrutura frágil. Milhões de células nascem e morrem a cada instante. Proteínas se formam e se desfazem. Fluidos precisam manter equilíbrio delicado. Correntes elétricas percorrem nervos. Microrganismos habitam o intestino, esse “segundo cérebro” que a ciência moderna redescobre a cada dia. Tudo funciona como uma balança permanentemente inclinada para a desordem, exigindo correções contínuas para permanecer de pé. Talvez por isso a saúde seja menos um estado permanente e mais um instante de harmonia. Entre uma gripe e outra, entre uma dor e outra, entre uma preocupação e outra, experimentamos períodos em que o corpo e a mente caminham juntos sem protestos. E justamente por serem raros, esses momentos passam despercebidos.

A filosofia estoica ensinava: o sofrimento faz parte da condição humana. Muitas tradições espirituais foram além, considerando o corpo uma morada temporária da alma, um instrumento de aprendizado ou mesmo de resgate. Sob essa ótica, a enfermidade deixa de ser uma exceção e passa a ser parte integrante da jornada. Há ainda um detalhe frequentemente esquecido: nem toda doença habita o corpo. Quantas vezes exames revelam normalidade enquanto a mente carrega angústias, medos, ressentimentos ou desesperanças? E quantas vezes um corpo limitado pela enfermidade abriga uma alma serena e luminosa?

Talvez seja por isso que os milagres, em todas as culturas, quase sempre envolvam cura. O homem sonha com saúde porque percebe sua ausência. Não implora pelo que possui em abundância. Pede aquilo que lhe falta ou aquilo que teme perder.

O velho gaúcho talvez resumisse tudo isso de maneira mais simples. Diria que a vida é como atravessar uma estrada de campo depois da chuva: há trechos firmes e há barro. O importante não é encontrar um caminho sem atoleiros, mas seguir adiante sem abandonar a marcha. No balanço final da existência, talvez descubramos que a saúde perfeita nunca foi o destino. Foi apenas a clareira entre duas matas, o descanso entre duas lidas, o sol que aparece entre as nuvens para lembrar que vale a pena continuar a viagem.

Vejo ainda uma ideia forte para fechar nossa prosa com um “coice de porco”, daqueles que ficam ecoando e fermentando na mente do vivente: “Talvez não sejamos criaturas saudáveis que adoecem de vez em quando. Talvez sejamos criaturas permanentemente em reparação, agraciadas por breves e preciosos momentos de equilíbrio que chamamos de saúde.”

Tem bastante cheiro de campo, filosofia e humanidade aí, companheiro. Como diria o velho campeiro, “saúde não é a ausência de doença; é o cavalo seguir andando mesmo depois de muitas invernadas com o peão se conhecendo e respeitando a vida”.

            Sabedoria: Quem anda procurando respostas encontra algumas; quem cultiva boas perguntas encontra as belas luzes do horizonte!

Z66 2026.07.07 – Vida Saudável com Intercorrência de Doenças

Ou Vida Doente com Períodos de Saúde

Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

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O Bisturi e o Estetoscópio na Trincheira Ideológica! 30 junho 2026

A Medicina Baseada em Evidências vs Medicina Baseada em Experiência.

O inverno está chegando, o outono abriu a porteira e o vento berrou na cumeeira: O Inverno tá vindo. Afiado como língua de sogra, cortando mais que navalha alemã em bordel de fronteira. Vamos cevando o mate com a cerração se infiltrando como corrupto. Prepara o pala, pois o tema é denso como geada de agosto. Come uma rosca de polvilho e vamos pra peleia e carnear um tema espinhoso!

O Estetoscópio e a Ampulheta: Entre o Protocolo e a Percepção.

A Medicina sempre caminhou sobre dois trilhos: a ciência, que busca a constante verdade universal, e a arte, que lida com a verdade única de quem sofre. O embate entre a Medicina Baseada em Evidências (MBE) e a Medicina Baseada em Experiência (MBEx) não deveria ser uma guerra, mas um diálogo. No entanto, o que vemos hoje é uma trincheira ideológica.

  1. O Dogma de Galeno e a Sombra de Semmelweis.

A história é cíclica. Durante séculos, a Medicina de Galeno foi um dogma inquestionável. Quem ousasse olhar para a anatomia de forma diferente era herético. Saltamos para o século XIX e encontramos Ignaz Semmelweis. Ele provou, com dados, que lavar as mãos salvava parturientes. O resultado? Foi ridicularizado, perseguido e morreu no ostracismo. O “pecado” de Semmelweis foi estar fora da “casinha” dos senhores do saber. Hoje, a MBE, que nasceu para nos libertar do “eu acho”, corre o risco de ser usada como um novo dogma de Galeno: se não está no ‘paper’ de ontem, não existe. Ignora-se que a evidência de amanhã nasce da observação clínica de hoje.

  • A Geopolítica da Cura: O Dragão e o Lótus.

É fascinante observar o “medo respeitoso” que a Medicina Tradicional Chinesa impõe. Há ali uma potência global e um alinhamento ideológico que blinda suas práticas de críticas mais ferozes. Enquanto isso, o Ayurveda, com seus cinco milênios de observação empírica e a sutileza da Nabhi Chikitsa, é tratado como uma nota de rodapé invisível. Por que o respeito por um e o desdém pelo outro? Talvez porque a ciência moderna, em sua arrogância juvenil, tenha dificuldade em admitir que povos ancestrais decifraram o funcionamento do corpo humano através da observação geracional — uma forma de “evidência” que leva séculos para ser coletada, mas que não cabe em uma planilha de Excel de curto prazo.

  • A Ferida Brasileira: Ideologia sob o Jaleco.

No Brasil, a medicina tropeçou na política. A “Partidarização da Saúde” criou uma cegueira bizarra. De um lado, o negacionismo científico; de outro, o cientificismo autoritário que ignora a autonomia do médico e a individualidade do paciente. Transformaram fármacos experimentais e condutas em bandeiras partidárias. O ódio substituiu o debate clínico. Quando a ideologia entra pela porta do consultório, a ética sai pela janela. O resultado é essa “cegueira de trincheira” onde o inimigo não é mais a patologia, mas o colega que pensa diferente.

  • Crônicas & Agudas: A Lida Diária.

A última pandemia foi o palco máximo dessa tragédia. Esqueceram-se de que a medicina é feita de incertezas e que a “evidência” é um alvo móvel. A medicina ancestral, as ervas do povo e a experiência de quem tem décadas de beira de leito foram atropeladas por narrativas construídas em gabinetes, longe do cheiro de hospital. Quando não rapinadas pela ideologia condenável.

  • O Veredito do Veterano Médico.

A MBE é o mapa, mas a MBEx é a bússola. O mapa nos diz onde o terreno é firme, mas a bússola nos diz para onde o paciente precisa ir. Sem o mapa, nos perdemos no charco; sem a bússola, viramos algoritmos frios. Ser “agudo” na crítica é necessário para que a Crônica da Vida não se torne um obituário da liberdade médica. Que venha o inverno! Estamos bem agasalhados com a verdade e o tempo, e o poncho da honra, da dignidade e da ética.

Z53 2026.06.30 – O Bisturi e o Estetoscópio na Trincheira Ideológica

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

História da Medicina

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A Mística do Número 3 e a Suprema Espiritualidade! 23 junho2026

Apresento um curiosa “sincronia” entre o corpo, a mente e a alma, mediada pelo número três/3. É fascinante como a observação clínica e a simbologia espiritual convergem no terceiro dia. Não parece ser apenas uma coincidência numérica, mas uma espécie de compasso rítmico da própria existência. No entrevero da vida, o gaúcho desdobra o olho e os sentidos apurados como pontaço de lança em carga de cavalaria farroupilha.

Na Medicina: O Marco do Terceiro Dia

A percepção de beira de leito tem um sólido respaldo na fisiologia e na história da Medicina. O número três atua como o divisor de águas, um marco de granito puro entre a reação aguda e a resolução:

A Regra das 72 Horas: Na infectologia clássica, 72 horas é o tempo padrão para avaliar a resposta a um antibiótico. É o período necessário para que a concentração sérica se estabilize e a curva térmica mostre a que veio.

O Despertar do Intestino: Na cirurgia, o terceiro dia costuma ser o momento em que o íleo paralítico pós-operatório cede. É quando os ruídos hidroaéreos (roncos intestinais) anunciam o retorno da vida visceral, permitindo a retirada de sondas e o início da dieta oral.

A Fisiologia do Edema: O pico do edema inflamatório ou cerebral frequentemente ocorre por volta de 48 a 72 horas, iniciando-se depois a fase de reabsorção.

Fundamentos Históricos: Hipócrates, o pai da Medicina, já falava nos “Dias Críticos”. Para os gregos, a doença tinha um ritmo (o kairós), e o terceiro dia era o primeiro grande ponto de inflexão para determinar se a natureza (Physis) venceria o mal ou se a enfermidade se tornaria crônica ou fatal.

Na Espiritualidade: A Plenitude do Três

O três é o número da superação da dualidade (eu/você, vida e morte). Ele traz o terceiro elemento que gera movimento e conclusão. Bíblia: Cristo ressuscita; Abrão e o sacrifício de Isaac; Gênesis – aflora a terra e nascem os vegetais; Exodus – Deus desce ao Monte Sinai para um pacto; Jonas no ventre o grande peixe; profeta Oseias; “morto na carne e vivo no espírito”, entre judeus; outras conexões ou sincronismo divino?

A Lei do Três (Gurdjieff e Tradições Antigas): Afirma que para qualquer fenômeno se manifestar, são necessárias três forças: a Ativa (Impulso), a Passiva (Resistência) e a Neutralizante (Conciliação). No terceiro dia, a “força neutralizante” entra em jogo, permitindo que a cura aconteça.

A Santíssima Trindade e outras Tríades: No Hinduísmo, temos a Trimurti (Brahma, Vishnu e Shiva — criação, conservação e destruição). O ciclo da vida se fecha no três.

O Tempo: Passado, presente e futuro. O terceiro dia é, simbolicamente, o “futuro” que se concretiza após o impacto do “presente” (o trauma ou início da doença).

A Sincronização: Por que o Três?

Essa “sincronização” ocorre porque o ser humano é um buscador de padrões. Biologicamente, o corpo precisa de um tempo mínimo para processar mudanças químicas e celulares (o ciclo de 24 horas do ritmo circadiano multiplicado por três ciclos). Espiritualmente, o três representa a totalidade: começo, meio e fim. Também: Pai, Filho e Espírito Santo.

Em outros povos, como os celtas, o número três era sagrado (o Triskle), representando a evolução e o movimento. Para muitos povos orientais, o três é o número da sorte e da estabilidade (como um tripé, que nunca balança).

O Veredito da Prosa

O terceiro dia é o momento em que a incerteza se torna diagnóstico. É quando o médico, após dois dias de vigília e expectativa, consegue finalmente “sentir o pulso” do prognóstico. Se no terceiro dia o doente pede água, quer sentar ou o intestino trabalha, a alma parece avisar ao corpo que decidiu ficar por aqui mais um pouco (Uhuuu!). “Crônicas & Agudas” tem no número três um aliado fiel: a observação do médico, o olhar do jornalista e a sensibilidade do escritor.

Z61 2026.06.23 – A Mística do Número 3 na Medicina e na Suprema Espiritualidade

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas!

Jornal Opinião de Viamão

A Medicina se faz História

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A Mística do ‘40’! Do Deserto ao Porto. 2026.06.16

Crônicas & Agudas ilumina uma conexão magistral, meu caro leitor. O número 40 não é apenas um marcador de tempo ou moeda; é uma espécie de “algoritmo sagrado” que a humanidade usou para codificar a ideia de purificação através do isolamento. Vamos abrir esse escaninho do tempo e entender como o misticismo bíblico se transformou na primeira barreira sanitária da história.

  1. A Mística do 40: Do Deserto ao Porto

Veja, observe o ponto central. Na tradição judaico-cristã, o ‘40’ representa o tempo necessário para uma metamorfose espiritual. A Prova: O tempo que leva para o “velho eu” morrer e o “novo” nascer. A Biologia Antiga: Hipócrates e Galeno acreditavam que doenças agudas mostravam sua verdadeira face (cura ou morte) em até 40 dias. Quando a Peste Negra assolou a Europa, o conhecimento médico era precário, mas a intuição espiritual era vasta. Em 1377, na cidade de Ragusa (atual Dubrovnik, Croácia), e mais tarde em Veneza (1448), decidiu-se que navios vindos de áreas infectadas deveriam esperar. Inicialmente foram 30 dias (trentine), mas logo subiu para 40 — a Quarentena (quaranta giorni). A lógica era um misto de fé e observação: se em 40 dias ninguém a bordo morresse, a “ira de Deus” (ou o miasma) teria se dissipado.

  • O Lazzaretto: O Purgatório na Terra

Veneza criou o primeiro Lazzaretto (um hospital de isolamento em uma ilha). O nome é uma amálgama fascinante: Vem da igreja de Santa Maria di Nazaret, mas foi confundido com Lázaro, o personagem bíblico coberto de chagas que ressuscitou. O Lazzaretto era o local onde a espiritualidade e a doença se encontravam. Era o “não-lugar”, onde o viajante esperava para saber se voltaria ao mundo dos vivos ou se seria entregue à terra.

3. Os “Doutores Corvo”: Máscaras de Pavor e Perfume na Peste Bubônica

Lembra os “narizes compridos”? Embora a imagem icônica que temos hoje seja do século XVII (aprimorada por Charles de Lorme), o conceito nasceu da tentativa desesperada de criar um EPI (Equipamento de Proteção Individual) místico-científico. O Bico: Não era estética; era um filtro. Eles enchiam o bico com mais de 50 substâncias aromáticas (âmbar, mirra, pétalas de rosa, cânfora). A Crença: Como acreditavam que a peste viajava pelo “mau cheiro” (miasma), o bico servia para “limpar” o ar antes de chegar aos pulmões do médico. A Lente de Cristal: Protegia contra o “olhar contagioso” que mencionamos antes. Curiosidade Sombria: O cajado que eles carregavam servia para examinar os pacientes sem tocá-los e, tragicamente, para afastar as pessoas desesperadas que tentavam agarrar o médico em busca de milagres.

4. O Combate Séptico: Quem Sobrevivia?

A taxa de mortalidade entre esses médicos era assustadora. Eles eram, muitas vezes, médicos de segunda categoria ou jovens em busca de fortuna rápida, pois os doutores renomados fugiam das cidades. Mortalidade: Em Veneza, durante os surtos mais graves, estima-se que até 40% dos médicos e cuidadores morriam no exercício da função. Eles eram alvos fáceis porque, apesar das roupas de couro encerado, as pulgas dos ratos encontravam frestas. O Saldo Humano: Nas cidades europeias, a Peste Negra não escolhia: estima-se que entre 75 e 200 milhões de pessoas tenham morrido no total. Em cidades como Florença, 60% da população desapareceu em meses.

O Legado do Isolamento

O que começou como um rito de purificação bíblica (os 40 dias) tornou-se a base da Saúde Pública Moderna. Hoje, quando falamos em quarentena, estamos usando uma ferramenta forjada na dor do século XIV, unindo o misticismo do número 40 à necessidade vital de separar o doente do saudável. A humanidade aprendeu que, às vezes, a única forma de salvar a tribo é o silêncio e a distância — o deserto de Moisés (40 anos fé em busca da Terra Prometida) replicado nos portos de Veneza. Recordar: Cristo (montanha) e Noé (Dilúvio) – 40 dias e noites. Há mais? Como 40 semanas de gravidez feminina! Mais…

Z57 2026.06.16 – A Mística do 40!

Do Deserto ao Porto – Lazzarettos

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

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HISTÓRIA DA MEDICINA

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Gases “Bizarros” – 2026.06.09

Essa didática e exuberante coluna, a mais lida do garrão do Brasil, chamusca sinônimos para o termo bizarro: estranho, excêntrico, extravagante, incomum, grotesco, mas também: gentil, elegante, nobre, valente, até arrogante. Esses singelos esclarecimentos são para dar uma cor e uma justificativa aos gases emanados do orifício inferior do corpo da criatura, próximo ao “playground” (sabedoria popular). O arroto fica para outra façanha épica. Flato ou pum são algumas denominações dessas emanações que, por vezes, são ruidosas, nem tanto como tiroteio no Rio, mas podem ser barulhentas o suficiente para alertar as narinas de que algo fétido, como latrina de congressista e bocas conhecidas, está a caminho.

Origem do pum!

O pum nasceu com o barro da criação. Grande parte desses gases vêm diretamente da boca – “um faz e o outro paga”! O ar ingerido, muito por ansiedade ou por atribulações nervosas, como até sentimentais. Outra fração desses puns são nativos da fermentação e da digestão. Após a meia idade perdemos de 1 a 3 % ao ano de capacidade vital – para tudo. Desde trabalho, lazer, sexo, digestão e absorção de nutrientes. Certas profissões, como jogador de futebol, é “velho” aos 35 anos. Eis aí de uma tacada só o motivo da terceira idade ser uma época de foguetório anal. Sempre que você olha uma bela moça, uma Gisele, sua mente jamais vai endereçar uma carta sabendo dos seus puns ou do “barro intestinal”. Não combina e nem anima pensar – grotesco?

E o mau odor?

Ou fedor mesmo… pois é, aqui o leitor corajoso/intimorato, como aquele sufocado num elevador ante tiroteio de puns silenciosos (surdos), espera o diagnóstico: enxofre. O enxofre e seus odores sempre estiveram associados ao inferno, ao supremo reduto de Satã. Pum é cultura clássica e eterna, pode adornar capítulos da História da Medicina e da queda de impérios. No Canto XI de Inferno de Dante Alighieri há passagens de “cheiros nauseantes” de enxofre. Na mitologia cristã e na Bíblia há “fogo e enxofre”. Fala-se muito no bioma intestinal, mas o resumo é que tudo termina em estrume. Ou terminam, acabam casamentos e interlúdios amorosos.

A primeira relação que fracassou.

Certo cidadão viamonense de meia idade, clássico, terno de linho branco, colete, gravata e chapéu – dá pra sentir o timbre do homem, tecia as linhas de um namoro com uma jovem já mais veterana (vetusta não) e que ainda estava na estação da vida e os trens já haviam passado. Uma época de vírgulas e reticências, principalmente porque o sexo fora do matrimônio era um “pecado mortal”. E foram tempo, muito tempo, se negaceando, até que certo dia marcaram um encontro de finalmentes no melhor hotel da capital. Dele se sabe que teve um trabalho monumental de preparo estético e atlético para o embate no tatame dos lençóis de linho egípcio. No aposento decorado previamente, as preliminares foram rápidas e objetivas. Ela já em fardamento de jogo (a de treino usava em casa!), no leito perfumado espera ele despir todo o paramento de cardeal supremo. E… sucedeu-se o desastre: um sonoro, acintoso, despropositado e fedorento pum inundou o ambiente, afogando qualquer ideia ou pretensão. Não se falaram. Vestiram-se e… nunca mais houve clima para um reencontro. Qual a sua dúvida atroz (ou atrás)?

Cuidados redobrados!

Do tiroteio com trovões valentes, nas enfermarias masculinas, aos gemidos e barrigas inchadas das mulheres nas enfermarias femininas, a vida galopa com tiros de garrucha a estouros de canhão. Vezes selando o destino de relações. E, com a idade, o esfíncter vai relaxando as pregas e soltando de improviso um alerta de que algo possa estar vindo atrás e… com velocidade. Cuidados redobrados! Derradeira informação: vezes se expele o gás metano que é inflamável – “fogo no rabo”. Felizmente é da vida de toda a criatura, do cão à mais bela moçoila! Bah!

Z 2026.06.09 – Gases Bizarros

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão