Eu Sou Viamão!
Sou Viamão, senhor das coxilhas e guardião das madrugadas.
Sou onde o sol primeiro se espreguiça no pago,
e o mate, na cuia de gerações, canta histórias de um tempo antigo.
Fui prece antes de praça, e cruz antes de estrada.
Na velha Igreja, que nem o tempo ousa desmanchar,
mora a fé dos tropeiros e o silêncio dos sinos.
É ali que o vento reza, e a história cochicha nas frestas da madeira santa.
Na beira do mar, sou farol.
Itapuã me alumia as origens —
foi ali que os passos primeiros fincaram a alma na terra braba,
entre sambaquis e sonhos de um povo que viria.
Sou Tarumã em tarde de ronco.
Meu coração corre junto aos carros,
feito potro xucro, domado só pela paixão da velocidade.
As retas são versos e as curvas, refrões de uma canção de coragem.
Nos bancos de praça e nos volantes antigos,
sou saudade viva dos que guiavam destinos.
Os carros de praça — mais que táxis, eram confessionários sobre rodas,
outrora puxados por cavalo, depois por sonho e motor.
E entre esses retratos que o tempo não desbota,
há um nome gravado com bisturi e coração:
sou médico de vocação,
sete décadas mais quatro de caminhada,
curando com ciência e afeto,
ouvindo o corpo e o silêncio das almas.
Decano me chamam, mas sou apenas homem de palavra e jaleco,
que escreve e escuta o que Viamão tem a contar.
Porque não sou só um, sou muitos:
sou o menino que correu descalço nas ruas de chão batido,
o velho que hoje lembra,
o cronista que escreve para não esquecer,
e o amigo que sempre volta.
Eu sou Viamão!
E quem me conhece, sabe:
não é preciso nascer aqui pra pertencer.
Basta sentir o campo,
ouvir os sinos,
respeitar a memória
e carregar no peito a honra de fazer parte desta querência.
2026.02.02 – Eu Sou Viamão
Edson Olimpio – Crônicas & Agudas