Há decisões que não erram por ignorância, mas por
excesso de certeza ou crueldade ideológica.
Em 1958, no auge do Grande Salto Adiante, sob a liderança de Mao Tsé-Tung*, a China decidiu que pardais eram inimigos do povo. A justificativa parecia simples: comiam grãos. A solução, mais simples ainda: eliminá-los. O método foi cruel. Não se tratou de caça, mas de exaustão. Milhões de aves foram impedidas de pousar até caírem do céu, mortas pelo cansaço. Foi uma sentença coletiva aplicada sem defesa, sem nuance e sem compreensão do sistema ao qual pertenciam.
O resultado é conhecido: colapso ecológico, explosão de pragas, quebra de safras e fome em escala histórica. Milhões de mortos. Não por falta de ação, mas por ação equivocada — sustentada por uma convicção rígida e por uma justiça sem revisão.
O erro não foi apenas técnico. Foi moral.
Sempre que o poder decide agir sem escutar o todo, transforma correção em violência. E violência, quando legitimada, costuma vir acompanhada de justificativas bem organizadas. A distância no tempo não torna essa história irrelevante. Ao contrário, ela se repete em outras formas.
Hoje, não se exterminam pardais. Mas ainda se aplicam decisões que ignoram proporção. Ainda se confundem rigor com justiça. Ainda se mede o erro sem medir o impacto da punição. Quando uma sentença ultrapassa o indivíduo e atinge sua família, seus filhos, sua possibilidade de recomeço, algo saiu do eixo. A pena deixa de ser instrumento de equilíbrio e passa a ser mecanismo de ampliação do dano.
A lei existe para ordenar. Mas, quando perde a medida, desordena. Não se trata de absolver erros nem de relativizar responsabilidades. Trata-se de lembrar que justiça sem proporção é apenas força com aparência de legitimidade. Há uma diferença fundamental entre o instinto de uma ave e a decisão de um homem. A pomba que pousa sobre uma estátua não ofende; apenas existe. Já o ser humano, quando julga, carrega o peso da escolha — e, com ela, a obrigação de medir consequências.
A história dos pardais deveria ter encerrado uma ilusão: a de que é possível corrigir o mundo por simplificação. Não é. Sistemas complexos não toleram respostas brutais sem cobrar o preço. Sociedades também não. Quando se perde a medida, o dano não é imediato apenas. Ele se prolonga. Espalha-se. Marca gerações.
A fome daquele tempo foi visível. Outras fomes são mais discretas: ausência, ruptura, perda de horizonte. E há uma ainda mais grave — a fome de esperança.
A antiga imagem da pomba que retorna com um sinal de terra firme continua atual. Não como símbolo religioso, mas como advertência: a vida precisa de espaço para continuar. Quando até isso se perde, não restam vencedores.
A história já mostrou o suficiente. O problema não é falta de exemplo.
É a insistência em ignorá-lo.
2026.07.21 – Quando a Justiça perde a Medida
Edson Olimpio – Crônicas & Agudas