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A Trindade “Fatal”! 2 – Final | 2026.09.22

Iodo – Mercurocromo – Mertiolate

Segue o baile, gaiteiro! Uma época heroica desse Edinho do Cabeleira. O iodo era cor “marrom barro”, trazia uma sentimento de punição severa, depois passou mais para uso hospitalar. O mercúrio cromo trazia o vermelho do grito engolido. Mudo. Trazia um sentimento de alívio e de heroísmo, de macho uma barbaridade. E o mertiolate transparente como água de poço, trazia a mensagem de traição e triste agonia; hoje, reformulado por clorexidina – não arde (nem cheira!).

O Veredito do Gaúcho, bagual desde guri.

Somos sobreviventes. Entre uma carreira atrás de uma “largatixa” (filhote de “cocodrilo”), um tombo de bicicleta na Lomba da Paciência ou do Fiuza, ou uma topada no futebol, fomos batizados, abençoados (?) por esses elixires milagrosos. Atestado para a vizinhança, para os colegas de escola, para as gurias bonitas que a gente não se mixava por pouco. Mesmo numa peleia feia barbaridade, o vivente não arreia e segue de pé. Muita piazada de hoje é tudo spray, indolor e cheirinho de florzinha.

Saudosa época em que a gente era curado no grito e no carinho bruto (?) das mães, que assopravam a ferida enquanto a gente via o céu estrelado ao meio dia. “Fez arte! Desobedeceu! Agora aguenta.” Quantas vezes, sofria com os “graves ferimentos”, mais castigos e até chineladas?

Reviver é Viver Novamente! Como ver o Sol nascer num oceano de Memórias.

Fico faceiro uma barbaridade se essas memórias, esses retratos de um tempo que o guri brincava e corria pelas ruas e campinhos de futebol despreocupado, também os pais, com o banditismo desenfreado e as “vítimas da sociedade” acobertadas por um injustiça absurda e cruel e uma política de direitos do bandido e deveres da vítima..

Um entrevero na saída da escola ou no campinho de futebol trouxe esse refresco para a alma. Honrando um tempo em que se era feliz por pouco. Muito pouco! E corajoso por obrigação, pois sobrevivemos à tríade “fatal”. Reavivando o sorriso maneiro de quem não se mixa por pouco (?), trazendo a foto na memória de um joelho ralado e pintado de mercurocromo, vermelho em brasa. O vivente ainda arrotava que tinha sangrado muito, um sangue de batalha, e o doutor do Hospital de Caridade, quis dar um monte de pontos, mas o valente não sujou a bombacha.

A casca que se formava era como um brasão de coragem, que anotava outra façanha – furungar, mexer e até arrancar a casca da ferida.

Conclusão Sagrada.

Um brinde à nossa história. Pela coragem inaudita de enfrentar o algodão ou a raquete com mertiolate. Pelo nosso estilo com os joelhos pintados de vermelho. E pela sobrevivência, pois as curas doíam mais, muito mais mesmo, que os tombos e peleias. Que os amigos e amigas se encontrem, seja laçados pelo amor dessas memórias e sejam novamente “heróis” desses tempos.

Minha querida mãe, a Dona Dora, deve estar rindo comigo nesses instantes sagrados. Creio que a sua mãe também. Creio, tenho certeza de que doía muito mais nela do que em mim ao enfrentar a “tríade fatal”. Hoje eu sei!

Z36 2026.09.22 – A Tríade Fatal 2 – Edson Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

HISTÓRIA da MEDICINA

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A Trindade “Fatal”! Parte 1 | 2026.09.15

Iodo – Mercurocromo – Mertiolate

Outro dia, garimpando no galpão da memória, lembrei-me duma época em que joelhos ralados eram medalhas de vitórias e coragem e a caixa de “primeiros socorros” mais lembrava um kit de tortura medieval ou até um estojo de pintura de guerra. A gente procurava a bronca, tombo feio que a pele ficava no cascalho, mas o pavor real, verdadeiro, não era o sangue: era a voz da mãe e a tarraxa do vidro destampando. Sem embromar mais, vamos destrinchar essa “santíssima trindade do ardor, com pingos de ciência e gotas de saudade.

O Iodo – A Cor da Terra e o Grito Saltando do Peito.

            O iodo era o pai dos antissépticos. Uma solução de iodo e iodeto de potássio em álcool que deixava uma mancha marrom-terra na pele, como se a gente tivesse sido marcado a ferro e brasa como um novilho no curral. Pingo de Ciência: O iodo é um agente oxidante poderoso. Ele entrava na ferida e saía “aniquilando” membranas de bactérias, fungos e qualquer forma de vida — inclusive as tuas células saudáveis. Por isso aquela sensação de que a perna estava pegando fogo. Pontaços de Drama: Passar iodo era um rito de passagem. A mancha escura demorava dias para sair, e a gente andava pela rua com o joelho parecendo um pedaço de charque esquecido no sol. Se o vivente não desse um grito de “prossigo” para o céu, não era humano.

            O Mercúrio Cromo – O Encarnado de uma Pintura de Guerra Guarani.

            Ah, o bem amado, o queridinho da gurizada! O Mercurocromo (Merbromina) era o alento do piá que já estava com os olhos lacrimejantes. Ele não ardia. Era um líquido de um vermelho vivo, quase fosforescente, que transformava qualquer arranhão numa ferida aberta cinematográfica de matiné de domingo. Pingo de Ciência: Sua base era o mercúrio e o bromo. Ele impedia a proliferação de bactérias, mas tinha um defeito: era um antisséptico fraco perto dos outros e, claro, levava mercúrio na composição. Traiçoeiro Desuso: O bicho caiu em desuso (e foi proibido pela Anvisa no início dos anos 2000) porque o mercúrio é cumulativo no corpo e tóxico para o meio ambiente. Além disso, aquela cor de “sangue falso” mascarava infecções; não se conseguia ver se o machucado estava inflamado ou se era só o brilho do remédio. O Cinema: O guri saía de casa pintado de vermelho como se tivesse enfrentado uma tropa inteira, mas estava faceiro porque a “cura” não tinha cobrado o imposto da dor.

            O Mertiolate – O Supremo “Capeta” Transparente.

            Se o iodo era o fogo e o mercúrio era a paz, o Mertiolate (Timerosal) era a traição pura e simples. Ele parecia água, transparente e inofensivo no vidro. Mas bastava uma gota encostar no “pisado” para a alma sair do corpo, dar três voltas no rancho e voltar soltando faísca. Pingo de Ciência: O composto original levava timerosal (outro derivado de mercúrio) em uma base altamente alcoólica. Era o álcool tocando os nervos expostos que fazia o guasca pular mais que cavalo sob espora de prata. A Revolução – a Paz Farroupilha: Nos anos 90, o Mertiolate mudou a fórmula. Tiraram o mercúrio e o álcool, e ele virou “o que não arde”. Para a nossa geração, aquilo soou como uma heresia! Um Mertiolate que não dói? É como um chimarrão frio: perde a razão de ser. O Trauma de Guerra: O “medo por antecipação” era real. A gente via a mãe vindo com o algodão e já começava a benzer o corpo, sabendo que a ardência ia ser de “tirar o couro”.

Recuerdos desse Cronista e Médico que já foi guri medonho em Viamão City. Concluo na próxima jornada, pealando as memórias e trazendo-as para a Estância da Saudade!

Z35  2026.09.15 – A Trindade Fatal 1

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

HISTÓRIA da MEDICINA

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Corpos sem Alma! Desalmados. | 2026.09.08

Comum escutar-se ou até com o dedo em riste, como espada: “Criatura desalmada”. Alguém ruim, maligna até, ou que nada a faz se compadecer, pior que não ter coração – não tem a alma. Não possui a essência vital de Deus. Um corpo que faz tudo que outros fazem, mas seu âmago é vazio ou sem a evolução necessária. Em várias civilizações, muitos povos, culturas e religiões há essa observação. Vamos campear pelo gauchismo num fogo de chão ou numa roda de mate, tendo o estoicismo como rédea, a espiritualidade como horizonte e a linguagem simples, aberta como coração de mãe para quem quiser se achegar ao fogo esclarecedor.

O Churrasco e o Vazio.

Qualquer piá sabe a diferença entre carne e osso, entre o que sustenta e o que engana. Tem criatura assim: aparenta sustância, mas quando se corta, não alimenta. É só vazio, um oco. Nesse mundão modernoso (um potreiro cercado de telas e de pressa) circulam pessoas que falam, trabalham, mandam e consomem, mas não aquecem ninguém ao redor. Vampiros! Sempre famintas mesmo na fartura. Se achegam como quem pede sal, mas saem levando o calor do fogo e a paz da roda. Os antigos chamavam de “gente sem alma”. Nomes diversos em várias tradições: arcontes, jinns, asuras, klipot, fantasmas famintos. Todos com o mesmo traço: vivem do que não produzem, alimentam-se do medo alheio, da raiva, da ansiedade. Num ano político: observe e diga aquilo que vem de primeiro à mente.

O estoico diria que não adianta odiá-los. O ódio também os nutre. O caminho é outro: não entregar a própria chama vital, não discutir com o vento, não exigir que a noite vire dia. Cada um guarde o seu fogo, como no churrasco o gaudério protege o braseiro do vento e da chuva inútil. O problema não é somente no número de vazios, risco há quando esquecem de mantê-los cheios. Condenados são recompensados nesse mundo, liberados por seus iguais…

Quando o Mundo Esfria!

E está esfriando, piorando. O mundo evolui em tecnologia, mas a alma não cresce nessa balada reta. A alma cresce em silêncio, com responsabilidade e ética. Mas no Brasil, os vazios parecem maioria. Sim ou não? Textos antigos chamavam de períodos de decadência, fim de ciclo, tempos sombrios. Não porque o mundo acaba, mas porque o espírito se distrai(?) e quando prospera no homem que não sente peso na consciência, nem gratidão no peito. Ele sobe, manda muito, mas deixa tudo mais frio por onde passa. Conhece alguém assim?

O gaúcho, o campeiro dos pampas, sabe: campo abandonado vira macega. Sem cuidado qualquer terra endurece, como o coração. Geralmente não é possessão demoníaca, é, talvez, a desistência silenciosa da própria alma. O vivente troca o ser pelo parecer, o sentido pelo ganho, o silêncio pelo berro, gritaria. A espiritualidade madura não caça monstros invisíveis. Manda vigiar o próprio fogo – manter honra, palavra, medida, dignidade, principalmente quando não é vigiado. Saber se afastar da roda traiçoeira sem brigar.

O churrasco bem feito não se traduz na quantidade de carne, o valor, aquilo que realmente importa, está no calor verdadeiro que sustenta a vida em volta. Não soltar a ponta da corda. Não arriar a bandeira. Jamais aceitar cabresto dessas criaturas “desalmadas” que usam pessoas como cama e escada para se sustentarem na volúpia do poder. E são eleitos e reeleitos. Repetem os mesmos crimes, assim como seus acólitos.

Z17 2026.09.08 – Corpos sem Alma – Desalmados

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

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O Voo da Fome e a Cal das Estátuas! 2026.08.01

Reflexões sobre a Natureza e o Poder

A história é frequentemente escrita com sangue, mas, por vezes, é desenhada pelo silêncio dos céus. Entre 1958 e 1962, a China de Mao Tsé-Tung tentou domar a biologia com decretos políticos. Ao rotular o pardal-montês como um “inimigo do povo” por consumir quatro quilos de grãos ao ano, o Grande Timoneiro não apenas ordenou um extermínio; ele assinou a sentença de fome para mais de 30 milhões de almas. O barulho das panelas, que impedia as aves de pousar até caírem mortas de exaustão, foi o prelúdio de um desequilíbrio ecológico onde gafanhotos, sem o seu predador natural, devoraram o que restava da esperança chinesa.

O homem, na sua arrogância de moldar o mundo à sua imagem — seja na industrialização forçada do Grande Salto Adiante ou na purga ideológica da Revolução Cultural e da satanização de opositores —, esquece-se de que a natureza não reconhece fronteiras partidárias nem hierarquias de ditadores. A “limpeza” dos céus resultou numa terra estéril. Anos depois, a China ver-se-ia obrigada a importar pardais da União Soviética. O pássaro, que outrora era praga, tornava-se agora o diplomata necessário para restaurar a vida.

Desta lição de extermínio, surge uma provocação contemporânea: e as nossas pombas? Esses animais que, na realidade bíblica de Noé, trouxeram o ramo de oliveira, ou que na espiritualidade representam o sopro divino, hoje são vistas como vândalos urbanos. Quando uma pomba libera os seus dejetos sobre o bronze frio de um conquistador ou o mármore de um estadista, estaria ela a exercer uma forma de “pichação biológica”? Seria o ato de excretar uma profanação deliberada da glória humana? Sim ou não?

A analogia é tentadora. Se perseguimos o pichador humano que utiliza o spray ou o batom para marcar a sua existência ou o seu protesto no patrimônio público, por que hesitamos na métrica aplicada às aves? O encarceramento ou o extermínio por “ofensa à imagem” das estátuas ignora que o pássaro não distingue entre a cabeça de um tirano e o galho de uma acácia. Para a pomba, a estátua é apenas solo ou um campo de pouso; para o humano, a estátua é ego. Perseguir o pássaro pelo seu rastro é, talvez, o ponto máximo da nossa vaidade: a tentativa de policiar até o que é instintivo, na esperança vã de manter imaculada uma história que, tal como a política de Mao, muitas vezes já nasceu manchada.

O Satânico sataniza a quem sua má índole deseja!

No fim, a cal das pombas nas praças e o extermínio dos pardais nos campos ensinam o mesmo: qualquer tentativa de silenciar a natureza — seja pelo ruído das panelas ou pelas grades da estética urbana — acaba sempre por revelar a fragilidade do pedestal onde nos colocamos.  Nota:  Inspirado nos eventos do “Grande Salto Adiante” (1958-1962) e na filosofia das intervenções urbanas – Débora, mulher e mãe, condenada a cerca de 17 anos de prisão. Além da tentativa de destruir a humanidade da pessoa, ameaça com crueldade ideológica a nação.

Z63 2026.08.01 – O Voo da Fome e a Cal das Estátuas

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

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O Crepúsculo dos Deuses e a Aurora do Homem!

O Crepúsculo dos Deuses e a Aurora do Homem!

Crônicas & Agudas mostra como uma narrativa revela a humanidade, após ser moída pelas engrenagens da peste e da superstição, acabou encontrando a saída através de uma fresta inesperada: a valorização da vida terrena. Aqui está a crônica do renascimento que brotou dos cemitérios. E a vida ressurge dos destroços! O cenário em 1350 era de um silêncio ensurdecedor. Com um terço da Europa enterrado, sepultado, o sistema feudal — que dependia de servos submissos e de uma igreja inquestionável — começou a apodrecer junto com os corpos. Mas, antes da luz, o caminho passou por uma “medicina” que mais parecia um corredor de tortura – como um “corredor polonês”, no seu amplo sentido. A vida que escapou do cadafalso da Peste Bubônica ou Negra…

1. Curas que eram Condenações.

Na falta de antibióticos, o desespero ditava a prática médica. Se você estivesse infectado, o “tratamento” poderia ser tão letal quanto a bactéria:

  • Sangrias Desenfreadas: Acreditava-se que o sangue estava “corrompido”, então os médicos drenavam o paciente até a anemia profunda, destruindo qualquer chance do sistema imunológico reagir. Foi o corpo se degradando a cada sangria.
  • O Método da Galinha: Uma prática comum era depenar o traseiro de uma galinha viva e aplicá-lo sobre os bulbos ou “bubões” (os gânglios inchados), acreditando que o animal “sugaria” o ‘veneno’.
  • Triaga e Pedras Preciosas: Os ricos bebiam misturas de esmeraldas moídas ou substâncias tóxicas como mercúrio e arsênico. Quem não morria da peste, muitas vezes morria do remédio. Adágio: Ou morre da doença ou morre da cura!
  •  

2. O Chacoalhão Social: O Fim da Servidão.

Aqui ocorre a reviravolta irônica. A morte em massa criou algo raro na Idade Média: a falta de mão de obra. Pela primeira vez em séculos, o camponês que sobreviveu percebeu que seu trabalho valia ouro. Os senhores feudais, desesperados para plantar e colher suas terras, tiveram que oferecer salários e liberdade. A estrutura de “quem nasce servo, morre servo” foi quebrada pelo impacto biológico. A peste, sem querer, foi a grande libertadora dos sobreviventes.

3. Da “Dança Macabra” ao Homem Vitruviano.

A espiritualidade mudou de tom. A arte da época era a Dança Macabra, focada na onipresença da morte. Mas, aos poucos, surgiu um questionamento: “Se a oração não nos salvou, e a medicina antiga falhou, talvez devamos observar o mundo como ele realmente é.” Esse ceticismo saudável foi o adubo vitaminado para o Renascimento. O foco saiu do “céu” (Teocentrismo) e voltou para o “homem” (Antropocentrismo). A anatomia começou a ser estudada seriamente — não mais em textos sagrados, mas abrindo corpos para entender a máquina humana. A dor da perda deu lugar à urgência de viver e criar.

O Saldo do Aprendizado.

A Peste Negra foi o evento mais traumático da história ocidental, mas também o mais transformador. Ela provou que: A natureza não tem favoritos: vírus e bactérias não leem brasões de nobreza. A ciência precisa de método: Sem observação real, a medicina é apenas uma forma lenta de tortura. A crise gera oportunidade: Foi sobre as cinzas da Idade Média que construímos a base da modernidade, da saúde pública e dos direitos individuais.

A humanidade aprendeu, a duras penas, que a melhor forma de honrar os mortos era entender as leis da vida.

Z55 2026.08.25 – O Crepúsculo dos Deuses e a Aurora do Homem

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas!

Jornal Opinião de Viamão

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O Médico de Plantão na Vida! Entre o Jaleco e a Amizade

O Médico de Plantão na Vida! Entre o Jaleco e a Amizade

A Medicina é uma das poucas profissões que o indivíduo não “tira” ao chegar em casa. Para a sociedade, o diploma é uma tatuagem indelével (O Diploma de Médico pertence à Jesus!” – Dra. Marlene Nobre). Do churrasco de domingo à fila do cinema, o médico é frequentemente convocado a dar “só uma olhadinha” em um exame ou a opinar sobre uma conduta alheia. É aqui que nasce um dos maiores desafios éticos da nossa jornada: o risco da opinião descontextualizada.

O Constrangimento do “Parecer por Amizade”

Muitas vezes, familiares e amigos carecem do senso crítico necessário para entender que Medicina não é palpite. Uma conduta cirúrgica ou um diagnóstico complexo não são frutos de uma intuição momentânea, mas de uma anamnese rigorosa e de exames físicos que o ambiente informal não permite. O constrangimento é real: se o médico se nega a falar, soa arrogante; se fala demais, fere a ética e, pior, pode induzir ao erro.

O Papel do “Tradutor Benevolente”

Quando somos consultados sobre um paciente que não é nosso, nossa função principal não é a de um juiz da conduta alheia, mas a de um tradutor. A missão: Decifrar o “médiquês” hermético que, por vezes, a equipe assistente não conseguiu simplificar. Frequente? Sim ou não? O limite: Explicar o que é a patologia. Orientar sobre condutas diferentes entre profissionais, sem jamais dizer “eu faria diferente”. Proteger o médico assistente é proteger o paciente. Quando o médico diz: “não tenho todos os dados para opinar”, demonstra mais competência do que aquele que chuta um diagnóstico durante um jantar ou na fumaça de um fogo de chão.

Ser o tradutor é dar clareza onde há névoa, sem retirar o solo firme sob os pés do colega que está à frente do caso. Risco: “a síndrome do consultório de calçada” – a medicina é um constante exercício entre a etiqueta social e a responsabilidade ética.

O “Porto Seguro Emocional”

Muitas vezes, quem nos aborda não busca uma segunda opinião técnica, mas um validador de angústias. O paciente ou seu familiar está vulnerável. Nesse momento, o médico-amigo deve atuar como o porto seguro: validar o medo, acolher a incerteza e reforçar a importância da confiança na equipe que detém a responsabilidade legal e clínica.

Regras de Ouro para a Fronteira Ética

Para o médico e para a sociedade, vale lembrar:

  1. A Medicina é presencial: Diagnóstico sem exame físico e histórico completo é, no máximo, uma hipótese estatística.
  2.  
  3. Respeito à Hierarquia Clínica: O médico assistente é quem detém o vínculo de responsabilidade. Interferir sem conhecê-lo é deslealdade profissional. Evitar radicalmente a “opinião de orelha” – uma “segunda opinião espúria” – isso é Solidariedade Profissional.
  4.  
  5. O Silêncio Estratégico: Saber dizer “sobre isso, o melhor é questionar o cirurgião dele” ou “seu médico” é um ato de prudência, não de omissão.

No fim das contas, nossa maior ajuda fora do hospital não é a prescrição, mas a orientação. Ser o guia que aponta o caminho da segurança, sem tentar dirigir o carro no lugar do colega que já está ao volante. Espero que meus 56 anos de Medicina tragam mais Luz, ética, responsabilidade e entendimento. Finalizo com o Valor do Silêncio: ouvir mais e falar menos!

Z  2026.08.18 – O Médico de Plantão na Vida

Entre o Jaleco e a Amizade

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

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O Pastel de Carreira! 1 de 2

O Pastel de Carreira! 1 de 2

Quem nunca foi a uma carreira não sabe que um pastel também pode contar a história de um povo. Naquele tempo, quando Viamão ainda guardava mais campo que cidade e os ventos pareciam vir soprados das velhas trincheiras farroupilhas na Cruz da Tarumã, o domingo de carreira era quase uma missa campeira. Só que, no lugar dos sinos, eram os relinchos; no lugar do altar, a cancha reta; e, no lugar da comunhão, um pastel fumegante acompanhado de guaraná gelado. Sem surfar no saudosismo, mas é o encantamento na memória de guri viamonense, neto do vô Olympio, e das avós Celina e Adiles.

A cancha amanhecia vazia, comprida como promessa de político e reta como espada desembainhada. Uma faixa de areia castigada pelos cascos e ladeada por fiapos de grama que insistiam em sobreviver à passagem dos pingos. Mas bastava o sol subir um pouco para o mundo inteiro desembocar ali.

Vinham caminhões carregando cavalos de Carazinho, Vacaria, Osório, Santo Antônio, Gravataí e de todas as querências que ainda acreditavam que um bom pingo valia mais que um discurso bonito e um trono no cemitério. Os animais desciam reluzentes, de músculos tremendo sob o couro lustroso, enquanto treinadores e amadrinhadores corriam de um lado para outro tentando convencer algum redomão nervoso de que a glória estava a poucos metros dali – num tiro de garra e suor de homem e animal.

Os jóqueis eram magros como taquaras, chamados de ‘pau-de-virar-tripa’. Vestiam sedas coloridas e carregavam no olhar aquela mistura de coragem e medo que só existe quando o homem sabe que vai desafiar a sorte. Alguns concentrados. Outros mais interessados no desfile das gurias (‘tesão de carreira’) do que na corrida que os esperava. E o povo chegava. Chegava de carroça, a cavalo, de caminhão ou a pé. Chegava para apostar. Apostava-se dinheiro, naturalmente. Mas também se apostava ovelhas, novilhas, cavalos, carreteiros e até pedaços de campo. Havia quem apostasse apenas a honra, e essa era quase sempre a aposta mais cara. Quando não a mais baixa!

No meio daquela multidão caminhavam os guris vendedores de pastel.

Tinham uma cesta dependurada no braço, coberta por um pano branco de saco de farinha do velho Moinho Esperança. Debaixo do pano repousava um tesouro dourado: pastéis fritos na banha de porco, com massa sovada na pinga da boa para criar aquelas bolhas crocantes que estalavam nos dentes e deixavam gordura escorrendo pelos cantos da felicidade. O aroma atravessava a cancha inteira. Até cavalo parecia sentir. Quando não fungava à proximidade do pastel.

— Pastel quente! Pastel quente!

E lá vinham eles, pequenos comerciantes da infância, disputando freguesia com mais empenho que muito candidato em ano eleitoral. Os vendedores mais velhos carregavam os pilas dobrados ao comprido entre os dedos da mão esquerda. Um entre cada vão. Faziam troco sem olhar, enquanto a outra mão entregava pastel e recolhia moedas. Mais adiante, os cochos de tijolos guardavam barras de gelo cobertas por serragem. Dentro deles dormiam cervejas e garrafas de guaraná tão frias que suavam antes mesmo de serem abertas. Ah, também as “gasosas”.

Z64 2026.08.04 – Pastel de Carreira – Edson Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

Pastel de Carreira! – Final

Nas sombras dos costeados, a fumaça dos churrascos desenhava nuvens particulares. Costelas gordas negaceavam sobre valas de brasas. Em tambores cortados ao meio, homens penteavam carnes com a paciência dos artistas. Farinha de mandioca havia à vontade, porque gaúcho que se preza respeita a carne, mas nunca despreza o acompanhamento. Enquanto isso, o velho Nico circulava. Baixo, barrigudo e dono de uma voz fina que cortava o ar como faca correntina ou navalha de bordel.

— Dobra pra mim! Dobra tudo!

E dobrava mesmo. Principalmente quando corria algum cavalo de sua estirpe. Ninguém sabia ao certo se era coragem ou loucura. Talvez as duas coisas juntas. Longe da raia principal, outros jogavam osso, outros a carpeta sobre um pala estendido no chão. Raros ganhavam o suficiente para comprar um lote. Outros perdiam o que tinham e o que ainda nem possuíam – como a lavoura por colher. Havia quem saísse rico. Havia quem saísse devendo a própria alma. Então vinha o silêncio. Aquele silêncio estranho que só existe segundos antes da largada.

Os cavalos alinhados. Os jóqueis encolhidos. O povo prendendo a respiração. E, de repente, o estampido. A cancha explodia. Relhos zuniam no vento. Homens gritavam. Mulheres berravam nomes de cavalos como quem invoca santos. Poeira levantava em redemoinhos. Alguns jóqueis distribuíam chicotadas não apenas no próprio pingo, mas também nos adversários, conforme permitia a rudeza dos costumes antigos.

Num instante tudo acabava. O vencedor seguia cercado de abraços. O derrotado encontrava desculpas com o medo de vingança por companheiro. E a multidão voltava para os pastéis. Porque a verdade é que a carreira podia durar segundos. Mas o domingo inteiro pertencia ao convívio. Ao gaiteiro puxando uma vaneira. Um mulato de dente de ouro dedilhando saudades nas cordas do violão.  Ao namoro escondido nos taquarais depois do cair da tarde. Às promessas de amor feitas sobre pelegos e esquecidas antes da próxima lua. À criançada correndo descalça entre os carros e cavalos, sonhando um dia montar os campeões que via passar.

Hoje muitas daquelas canchas desapareceram. Estão escassas como vergonha na cara, e homem que não se envergonha de não prover o sustento da família e ficar aboletado numa “cesta” .

A carreira espelhava o culto banhado no suor do desafio, embevecido pela nostalgia de tempos do ‘fio de bigode’, curtido na coragem de tempos remotos com a bandeira do “meu tempo”… No entrevero das comitivas, de tantas honras enterradas aos 7 pés de profundidade, do berro de .38 ao planchaço do marca-touro na paleta do desafeto… Ao humor em versos cantados numa trova em que a rima evoluía num trago liso numa garrafa de butiás bem curtidos. Uma lenda revela que havia um padre que escorava a aposta num cavalo que ele dizia ser o feitio do cavalo de São Jorge. Muitos beatos não iam nessa milonga, pois o padre empoeirava a batina e ‘neca’ de ganhar.

A grama cobriu rastros. O tempo levou cavalos, apostadores, músicos e valentões. Mas ainda existe uma lembrança teimosa que resiste ao esquecimento. Ela não tem ferraduras. Não veste seda. Não carrega relho. Cabe dentro de uma cesta coberta por um pano branco. Tem cheiro de banha quente, massa crocante e infância. Porque, quando a memória abre suas porteiras, o primeiro a cruzar o corredor do tempo não é o cavalo vencedor: É sempre o pastel de carreira!

Z64 2026.08.11 – Pastel de Carreira – Final – Edson Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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Subir Escadas: 2026.07.28

Um Caminho Simples para uma Vida Mais Longa e Saudável!

Outro dia, acordei com uma lembrança de algo que li na minha distante juventude. Uma pergunta interessante sobre um antigo relato da NASA, das décadas de 1960 e 1970: supostos cartazes nos prédios da agência orientavam astronautas a evitar elevadores e preferir as escadas. A história sugere que cada degrau (subindo ou descendo), sempre adicionaria frações preciosas de tempo à “saúde vital” e à longevidade do vivente.

Embora não tenha encontrado registros históricos precisos que confirmem esses cartazes específicos na NASA (pode ser uma lenda motivacional ou rotina atribuída à disciplina dos astronautas), a mensagem central faz todo o sentido. A ciência moderna corrobora amplamente os benefícios de subir e descer escadas.

Estudos recentes, como uma meta-análise apresentada na European Society of Cardiology em 2024, mostram que quem sobe escadas regularmente apresenta 24% menos risco de morte por qualquer causa e 39% menos risco de morte por doenças cardiovasculares. Outro grande estudo de coorte, com mais de 280 mil participantes, indicou que subir mais de cinco lances por dia (cerca de 50 degraus) associa-se a menor mortalidade geral e por câncer, com ganhos estimados em semanas ou meses adicionais de vida saudável. Ufa! Vale muito mesmo e tem todo o respaldo da ciência. Sabedoria complementar: Para subir as escadas da Vida jamais use os ombros e as costas dos outros!

Subir ou descer escadas são exercícios acessíveis, gratuitos e multifuncionais: melhoram o condicionamento cardiovascular, fortalecem pernas e glúteos, aumentam a densidade óssea e ajudam no controle de peso, pressão arterial e glicemia. É um “snack” de atividade física de alta intensidade que cabe na rotina de qualquer um. Eu faço! E você?

Para quem não tem escadas disponíveis ou enfrenta limitações articulares, há excelentes alternativas. A máquina de escada na academia é a mais fiel. Em casa ou no consultório, experimente step-up em um banco firme, caminhada inclinada na esteira, agachamentos, avanços (lunges) e elevação de panturrilhas. Atividades como caminhada rápida em subidas, ciclismo, natação ou pular corda também replicam boa parte dos ganhos. Hora de experimentar!

O importante é manter o movimento vertical ou o esforço similar nas pernas. Como um médico rumo a cem anos de vida e consultório ainda ativo, reforço: movimento é remédio. Porém, antes de iniciar ou intensificar qualquer prática, consulte seu médico, um fisioterapeuta ou um educador físico. Avaliação individual evita lesões, especialmente em joelhos, coluna ou quadril, e permite adequar a intensidade à sua condição atual.

Pequenas escolhas diárias — trocar o elevador pelas escadas quando possível — acumulam grandes resultados ao longo dos anos. Saúde não se conquista apenas com remédios, mas com hábitos consistentes e inteligentes. Semear e colher – para o Bem ou para o Mal!

Cuide-se. E suba um degrau a mais hoje. Seu coração e seu futuro agradecerão!

Z65 2026.07.28 – Subir Escadas – Edson Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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QUANDO A JUSTIÇA PERDE A MEDIDA! 2026.07.21

Há decisões que não erram por ignorância, mas por

excesso de certeza ou crueldade ideológica.

Em 1958, no auge do Grande Salto Adiante, sob a liderança de Mao Tsé-Tung*, a China decidiu que pardais eram inimigos do povo. A justificativa parecia simples: comiam grãos. A solução, mais simples ainda: eliminá-los. O método foi cruel. Não se tratou de caça, mas de exaustão. Milhões de aves foram impedidas de pousar até caírem do céu, mortas pelo cansaço. Foi uma sentença coletiva aplicada sem defesa, sem nuance e sem compreensão do sistema ao qual pertenciam.

O resultado é conhecido: colapso ecológico, explosão de pragas, quebra de safras e fome em escala histórica. Milhões de mortos. Não por falta de ação, mas por ação equivocada — sustentada por uma convicção rígida e por uma justiça sem revisão.

O erro não foi apenas técnico. Foi moral.

Sempre que o poder decide agir sem escutar o todo, transforma correção em violência. E violência, quando legitimada, costuma vir acompanhada de justificativas bem organizadas. A distância no tempo não torna essa história irrelevante. Ao contrário, ela se repete em outras formas.

Hoje, não se exterminam pardais. Mas ainda se aplicam decisões que ignoram proporção. Ainda se confundem rigor com justiça. Ainda se mede o erro sem medir o impacto da punição. Quando uma sentença ultrapassa o indivíduo e atinge sua família, seus filhos, sua possibilidade de recomeço, algo saiu do eixo. A pena deixa de ser instrumento de equilíbrio e passa a ser mecanismo de ampliação do dano.

A lei existe para ordenar. Mas, quando perde a medida, desordena. Não se trata de absolver erros nem de relativizar responsabilidades. Trata-se de lembrar que justiça sem proporção é apenas força com aparência de legitimidade. Há uma diferença fundamental entre o instinto de uma ave e a decisão de um homem. A pomba que pousa sobre uma estátua não ofende; apenas existe. Já o ser humano, quando julga, carrega o peso da escolha — e, com ela, a obrigação de medir consequências.

A história dos pardais deveria ter encerrado uma ilusão: a de que é possível corrigir o mundo por simplificação. Não é. Sistemas complexos não toleram respostas brutais sem cobrar o preço. Sociedades também não. Quando se perde a medida, o dano não é imediato apenas. Ele se prolonga. Espalha-se. Marca gerações.

A fome daquele tempo foi visível. Outras fomes são mais discretas: ausência, ruptura, perda de horizonte. E há uma ainda mais grave — a fome de esperança.

A antiga imagem da pomba que retorna com um sinal de terra firme continua atual. Não como símbolo religioso, mas como advertência: a vida precisa de espaço para continuar. Quando até isso se perde, não restam vencedores.

A história já mostrou o suficiente. O problema não é falta de exemplo.

É a insistência em ignorá-lo.

2026.07.21 – Quando a Justiça perde a Medida

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

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Vivendo no Gulag das Bananas: Crônica de um Sobrevivente 2026.07.14

Vivendo nesta ilha perdida e mal achada nos confins de um oceano de perdição — que alguns insistem, teimam em chamar de pátria —, o vivente acorda com a nítida sensação de que está tentando escapar de um gulag travestido de piquenique. A turbulência por aqui tem mistério e, principalmente, ministério e toga. Para navegar nessas águas revoltas, é preciso ter o couro grosso e o cinismo afiado como adaga missioneira. A correnteza puxa para o fundo, mas o gaudério não se entrega pros homens nem que a vaca tussa o hino nacional. E tem tossido… Nota: GULAG é uma sigla dos campos de concentração soviéticos. Durante Stalin, mais de 20 milhões de seres humanos foram sacrificados pela doutrina comunista.

Neste domingo sagrado, sem o plantão da labuta que me consome os dias, dei-me ao luxo de puxar as cobertas até as dez da manhã. Queria sentir na carcaça o valor da cama de um desses lustrosos e escorregadios que habitam o Monte Olimpo nacional, aquela paragem malcheirosa e pegajosa de onde emanam as ordens que nos custam os olhos da cara. Falando nessa turma, a ciência haverá de inventar um exame clínico para eles: se lhes tiram o sangue, o laboratório acaba fazendo exame de fezes num líquido banhado a uísque e vinho do mais sagrado (ou sangrado para nós?) — sagrado para eles, pois para nós, contribuintes involuntários, o gosto é pura salmoura com fel.

É uma terra exótica essa. Uma ilha de ponta-cabeça onde um tubo de batom é fichado como arma de destruição em massa, e uma bandeira nacional empunhada com uma Bíblia na mão de uma vovó indefesa é classificada como um atentado feroz e terrorista à democracia. Que ilha é essa, pergunta este sobrevivente? Se isso é terrorismo, o bicho-papão anda de pantufas e toma chá de camomila. Para espantar o tédio dessa comédia bufa, liguei a tevê no jogo da seleção. Que barbaridade! Umas biscas fantasiadas de atletas, fazendo de conta que jogam o esporte bretão, quando na verdade seriam ótimos coadjuvantes em partida de frescobol no litoral gaúcho. No comando da galera abonada, o treinador parece um monge da paciência mastigando seu eterno chiclé, enquanto o futebol brasileiro vai pro ralo. Nada é tão ruim que não possa piorar: basta ver o poder de escolha para quem só escolhe o pior. Muito pior! Ou se abstém.

Aproveitando a cama longa e o espelho do banheiro, decidi dar uns cortes no que me resta de “cabelo”. O que outrora foi uma frondosa melena de respeito, hoje empacota um misto de macega brava com gravatá seco. Desconfio, seriamente, que os cabelos cansaram do lado de fora e começaram a crescer para dentro, de tantas rateadas possíveis no cotidiano. Já são quase cem anos na estrada da vida, tomando sol na moleira e encarando as intempéries do tempo. O rumo ao firmamento tem suas fases folclóricas. Meu amigo, o indômito Ninja dos Lençóis — que ao lado do Pedalador Itinerante e do Ninja dos Pelegos forma uma confraria de sobreviventes estoicos —, costuma dizer que, se fôssemos macacos nesta selva moderna, já estaríamos há muito tempo na barriga de um leão. A agilidade sumiu, não dá mais para trepar, principalmente nas árvores para colher os frutos da copa e, lá de baixo, o felino só espia… e nhac!

Ainda assim, não dá para pendurar as chuteiras antes do apito final. O segredo é não inventar muito: se o vivente se aquecer demais antes de entrar em campo na maturidade, corre o risco de queimar a largada ou sair torrado antes do primeiro passe. O tempo passa e a sabedoria manda mudar a diplomacia: depois de certa idade, o sujeito tem que fazer amizade com as formigas e com as minhocas. É bom tratá-las bem desde já, e parar, definitivamente, de espetar a minhoca no anzol. Afinal, a vizinhança futura exige boa convivência.

No fechamento das contas, diante de tanta burocracia que regula até o sopro da vida, restou-me uma dúvida atroz, daquelas que a gente persegue atrás de uma resposta lógica: será que até para a cremação do vivente o sujeito precisa apresentar um laudo de autorização do Corpo de Bombeiros? Do jeito que o gulag funciona, capaz de exigirem o alvará de prevenção contra incêndio para o próprio falecido. Mas enquanto o alvará não vem, sigo tocando o barco, remando na correnteza e rindo na cara do perigo, com o bisturi pronto para descascar as laranjas do destino.

Z65 2026.07.14 – Vivendo no Gulag das Bananas: Crônica de um Sobrevivente!

Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão