Vivendo nesta ilha perdida e mal achada nos confins de um oceano de perdição — que alguns insistem, teimam em chamar de pátria —, o vivente acorda com a nítida sensação de que está tentando escapar de um gulag travestido de piquenique. A turbulência por aqui tem mistério e, principalmente, ministério e toga. Para navegar nessas águas revoltas, é preciso ter o couro grosso e o cinismo afiado como adaga missioneira. A correnteza puxa para o fundo, mas o gaudério não se entrega pros homens nem que a vaca tussa o hino nacional. E tem tossido… Nota: GULAG é uma sigla dos campos de concentração soviéticos. Durante Stalin, mais de 20 milhões de seres humanos foram sacrificados pela doutrina comunista.
Neste domingo sagrado, sem o plantão da labuta que me consome os dias, dei-me ao luxo de puxar as cobertas até as dez da manhã. Queria sentir na carcaça o valor da cama de um desses lustrosos e escorregadios que habitam o Monte Olimpo nacional, aquela paragem malcheirosa e pegajosa de onde emanam as ordens que nos custam os olhos da cara. Falando nessa turma, a ciência haverá de inventar um exame clínico para eles: se lhes tiram o sangue, o laboratório acaba fazendo exame de fezes num líquido banhado a uísque e vinho do mais sagrado (ou sangrado para nós?) — sagrado para eles, pois para nós, contribuintes involuntários, o gosto é pura salmoura com fel.
É uma terra exótica essa. Uma ilha de ponta-cabeça onde um tubo de batom é fichado como arma de destruição em massa, e uma bandeira nacional empunhada com uma Bíblia na mão de uma vovó indefesa é classificada como um atentado feroz e terrorista à democracia. Que ilha é essa, pergunta este sobrevivente? Se isso é terrorismo, o bicho-papão anda de pantufas e toma chá de camomila. Para espantar o tédio dessa comédia bufa, liguei a tevê no jogo da seleção. Que barbaridade! Umas biscas fantasiadas de atletas, fazendo de conta que jogam o esporte bretão, quando na verdade seriam ótimos coadjuvantes em partida de frescobol no litoral gaúcho. No comando da galera abonada, o treinador parece um monge da paciência mastigando seu eterno chiclé, enquanto o futebol brasileiro vai pro ralo. Nada é tão ruim que não possa piorar: basta ver o poder de escolha para quem só escolhe o pior. Muito pior! Ou se abstém.
Aproveitando a cama longa e o espelho do banheiro, decidi dar uns cortes no que me resta de “cabelo”. O que outrora foi uma frondosa melena de respeito, hoje empacota um misto de macega brava com gravatá seco. Desconfio, seriamente, que os cabelos cansaram do lado de fora e começaram a crescer para dentro, de tantas rateadas possíveis no cotidiano. Já são quase cem anos na estrada da vida, tomando sol na moleira e encarando as intempéries do tempo. O rumo ao firmamento tem suas fases folclóricas. Meu amigo, o indômito Ninja dos Lençóis — que ao lado do Pedalador Itinerante e do Ninja dos Pelegos forma uma confraria de sobreviventes estoicos —, costuma dizer que, se fôssemos macacos nesta selva moderna, já estaríamos há muito tempo na barriga de um leão. A agilidade sumiu, não dá mais para trepar, principalmente nas árvores para colher os frutos da copa e, lá de baixo, o felino só espia… e nhac!
Ainda assim, não dá para pendurar as chuteiras antes do apito final. O segredo é não inventar muito: se o vivente se aquecer demais antes de entrar em campo na maturidade, corre o risco de queimar a largada ou sair torrado antes do primeiro passe. O tempo passa e a sabedoria manda mudar a diplomacia: depois de certa idade, o sujeito tem que fazer amizade com as formigas e com as minhocas. É bom tratá-las bem desde já, e parar, definitivamente, de espetar a minhoca no anzol. Afinal, a vizinhança futura exige boa convivência.
No fechamento das contas, diante de tanta burocracia que regula até o sopro da vida, restou-me uma dúvida atroz, daquelas que a gente persegue atrás de uma resposta lógica: será que até para a cremação do vivente o sujeito precisa apresentar um laudo de autorização do Corpo de Bombeiros? Do jeito que o gulag funciona, capaz de exigirem o alvará de prevenção contra incêndio para o próprio falecido. Mas enquanto o alvará não vem, sigo tocando o barco, remando na correnteza e rindo na cara do perigo, com o bisturi pronto para descascar as laranjas do destino.
Z65 2026.07.14 – Vivendo no Gulag das Bananas: Crônica de um Sobrevivente!
Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão