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A Trindade “Fatal”! Parte 1 | 2026.09.15

Iodo – Mercurocromo – Mertiolate

Outro dia, garimpando no galpão da memória, lembrei-me duma época em que joelhos ralados eram medalhas de vitórias e coragem e a caixa de “primeiros socorros” mais lembrava um kit de tortura medieval ou até um estojo de pintura de guerra. A gente procurava a bronca, tombo feio que a pele ficava no cascalho, mas o pavor real, verdadeiro, não era o sangue: era a voz da mãe e a tarraxa do vidro destampando. Sem embromar mais, vamos destrinchar essa “santíssima trindade do ardor, com pingos de ciência e gotas de saudade.

O Iodo – A Cor da Terra e o Grito Saltando do Peito.

            O iodo era o pai dos antissépticos. Uma solução de iodo e iodeto de potássio em álcool que deixava uma mancha marrom-terra na pele, como se a gente tivesse sido marcado a ferro e brasa como um novilho no curral. Pingo de Ciência: O iodo é um agente oxidante poderoso. Ele entrava na ferida e saía “aniquilando” membranas de bactérias, fungos e qualquer forma de vida — inclusive as tuas células saudáveis. Por isso aquela sensação de que a perna estava pegando fogo. Pontaços de Drama: Passar iodo era um rito de passagem. A mancha escura demorava dias para sair, e a gente andava pela rua com o joelho parecendo um pedaço de charque esquecido no sol. Se o vivente não desse um grito de “prossigo” para o céu, não era humano.

            O Mercúrio Cromo – O Encarnado de uma Pintura de Guerra Guarani.

            Ah, o bem amado, o queridinho da gurizada! O Mercurocromo (Merbromina) era o alento do piá que já estava com os olhos lacrimejantes. Ele não ardia. Era um líquido de um vermelho vivo, quase fosforescente, que transformava qualquer arranhão numa ferida aberta cinematográfica de matiné de domingo. Pingo de Ciência: Sua base era o mercúrio e o bromo. Ele impedia a proliferação de bactérias, mas tinha um defeito: era um antisséptico fraco perto dos outros e, claro, levava mercúrio na composição. Traiçoeiro Desuso: O bicho caiu em desuso (e foi proibido pela Anvisa no início dos anos 2000) porque o mercúrio é cumulativo no corpo e tóxico para o meio ambiente. Além disso, aquela cor de “sangue falso” mascarava infecções; não se conseguia ver se o machucado estava inflamado ou se era só o brilho do remédio. O Cinema: O guri saía de casa pintado de vermelho como se tivesse enfrentado uma tropa inteira, mas estava faceiro porque a “cura” não tinha cobrado o imposto da dor.

            O Mertiolate – O Supremo “Capeta” Transparente.

            Se o iodo era o fogo e o mercúrio era a paz, o Mertiolate (Timerosal) era a traição pura e simples. Ele parecia água, transparente e inofensivo no vidro. Mas bastava uma gota encostar no “pisado” para a alma sair do corpo, dar três voltas no rancho e voltar soltando faísca. Pingo de Ciência: O composto original levava timerosal (outro derivado de mercúrio) em uma base altamente alcoólica. Era o álcool tocando os nervos expostos que fazia o guasca pular mais que cavalo sob espora de prata. A Revolução – a Paz Farroupilha: Nos anos 90, o Mertiolate mudou a fórmula. Tiraram o mercúrio e o álcool, e ele virou “o que não arde”. Para a nossa geração, aquilo soou como uma heresia! Um Mertiolate que não dói? É como um chimarrão frio: perde a razão de ser. O Trauma de Guerra: O “medo por antecipação” era real. A gente via a mãe vindo com o algodão e já começava a benzer o corpo, sabendo que a ardência ia ser de “tirar o couro”.

Recuerdos desse Cronista e Médico que já foi guri medonho em Viamão City. Concluo na próxima jornada, pealando as memórias e trazendo-as para a Estância da Saudade!

Z35  2026.09.15 – A Trindade Fatal 1

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

HISTÓRIA da MEDICINA

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