Vida Doente com Períodos de Saúde?
Desde criança aprendemos a desejar saúde. Quando alguém espirra, desejamos saúde. Quando alguém adoece, rezamos por saúde. Quando encontramos um amigo, perguntamos pela saúde da família. Mas raramente paramos para refletir sobre uma pergunta simples: vivemos uma vida saudável com alguns períodos de doença ou vivemos uma vida doente com breves períodos de saúde?
O corpo humano é uma obra extraordinária, mas também uma estrutura frágil. Milhões de células nascem e morrem a cada instante. Proteínas se formam e se desfazem. Fluidos precisam manter equilíbrio delicado. Correntes elétricas percorrem nervos. Microrganismos habitam o intestino, esse “segundo cérebro” que a ciência moderna redescobre a cada dia. Tudo funciona como uma balança permanentemente inclinada para a desordem, exigindo correções contínuas para permanecer de pé. Talvez por isso a saúde seja menos um estado permanente e mais um instante de harmonia. Entre uma gripe e outra, entre uma dor e outra, entre uma preocupação e outra, experimentamos períodos em que o corpo e a mente caminham juntos sem protestos. E justamente por serem raros, esses momentos passam despercebidos.
A filosofia estoica ensinava: o sofrimento faz parte da condição humana. Muitas tradições espirituais foram além, considerando o corpo uma morada temporária da alma, um instrumento de aprendizado ou mesmo de resgate. Sob essa ótica, a enfermidade deixa de ser uma exceção e passa a ser parte integrante da jornada. Há ainda um detalhe frequentemente esquecido: nem toda doença habita o corpo. Quantas vezes exames revelam normalidade enquanto a mente carrega angústias, medos, ressentimentos ou desesperanças? E quantas vezes um corpo limitado pela enfermidade abriga uma alma serena e luminosa?
Talvez seja por isso que os milagres, em todas as culturas, quase sempre envolvam cura. O homem sonha com saúde porque percebe sua ausência. Não implora pelo que possui em abundância. Pede aquilo que lhe falta ou aquilo que teme perder.
O velho gaúcho talvez resumisse tudo isso de maneira mais simples. Diria que a vida é como atravessar uma estrada de campo depois da chuva: há trechos firmes e há barro. O importante não é encontrar um caminho sem atoleiros, mas seguir adiante sem abandonar a marcha. No balanço final da existência, talvez descubramos que a saúde perfeita nunca foi o destino. Foi apenas a clareira entre duas matas, o descanso entre duas lidas, o sol que aparece entre as nuvens para lembrar que vale a pena continuar a viagem.
Vejo ainda uma ideia forte para fechar nossa prosa com um “coice de porco”, daqueles que ficam ecoando e fermentando na mente do vivente: “Talvez não sejamos criaturas saudáveis que adoecem de vez em quando. Talvez sejamos criaturas permanentemente em reparação, agraciadas por breves e preciosos momentos de equilíbrio que chamamos de saúde.”
Tem bastante cheiro de campo, filosofia e humanidade aí, companheiro. Como diria o velho campeiro, “saúde não é a ausência de doença; é o cavalo seguir andando mesmo depois de muitas invernadas com o peão se conhecendo e respeitando a vida”.
Sabedoria: Quem anda procurando respostas encontra algumas; quem cultiva boas perguntas encontra as belas luzes do horizonte!
Z66 2026.07.07 – Vida Saudável com Intercorrência de Doenças
Ou Vida Doente com Períodos de Saúde
Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão