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O Voo da Fome e a Cal das Estátuas! 2026.08.01

Reflexões sobre a Natureza e o Poder

A história é frequentemente escrita com sangue, mas, por vezes, é desenhada pelo silêncio dos céus. Entre 1958 e 1962, a China de Mao Tsé-Tung tentou domar a biologia com decretos políticos. Ao rotular o pardal-montês como um “inimigo do povo” por consumir quatro quilos de grãos ao ano, o Grande Timoneiro não apenas ordenou um extermínio; ele assinou a sentença de fome para mais de 30 milhões de almas. O barulho das panelas, que impedia as aves de pousar até caírem mortas de exaustão, foi o prelúdio de um desequilíbrio ecológico onde gafanhotos, sem o seu predador natural, devoraram o que restava da esperança chinesa.

O homem, na sua arrogância de moldar o mundo à sua imagem — seja na industrialização forçada do Grande Salto Adiante ou na purga ideológica da Revolução Cultural e da satanização de opositores —, esquece-se de que a natureza não reconhece fronteiras partidárias nem hierarquias de ditadores. A “limpeza” dos céus resultou numa terra estéril. Anos depois, a China ver-se-ia obrigada a importar pardais da União Soviética. O pássaro, que outrora era praga, tornava-se agora o diplomata necessário para restaurar a vida.

Desta lição de extermínio, surge uma provocação contemporânea: e as nossas pombas? Esses animais que, na realidade bíblica de Noé, trouxeram o ramo de oliveira, ou que na espiritualidade representam o sopro divino, hoje são vistas como vândalos urbanos. Quando uma pomba libera os seus dejetos sobre o bronze frio de um conquistador ou o mármore de um estadista, estaria ela a exercer uma forma de “pichação biológica”? Seria o ato de excretar uma profanação deliberada da glória humana? Sim ou não?

A analogia é tentadora. Se perseguimos o pichador humano que utiliza o spray ou o batom para marcar a sua existência ou o seu protesto no patrimônio público, por que hesitamos na métrica aplicada às aves? O encarceramento ou o extermínio por “ofensa à imagem” das estátuas ignora que o pássaro não distingue entre a cabeça de um tirano e o galho de uma acácia. Para a pomba, a estátua é apenas solo ou um campo de pouso; para o humano, a estátua é ego. Perseguir o pássaro pelo seu rastro é, talvez, o ponto máximo da nossa vaidade: a tentativa de policiar até o que é instintivo, na esperança vã de manter imaculada uma história que, tal como a política de Mao, muitas vezes já nasceu manchada.

O Satânico sataniza a quem sua má índole deseja!

No fim, a cal das pombas nas praças e o extermínio dos pardais nos campos ensinam o mesmo: qualquer tentativa de silenciar a natureza — seja pelo ruído das panelas ou pelas grades da estética urbana — acaba sempre por revelar a fragilidade do pedestal onde nos colocamos.  Nota:  Inspirado nos eventos do “Grande Salto Adiante” (1958-1962) e na filosofia das intervenções urbanas – Débora, mulher e mãe, condenada a cerca de 17 anos de prisão. Além da tentativa de destruir a humanidade da pessoa, ameaça com crueldade ideológica a nação.

Z63 2026.08.01 – O Voo da Fome e a Cal das Estátuas

Edson Olimpio – Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

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